Jornal A CIDADE

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Vicente Golfeto

Terça-Feira, 11 de Março 2008 - 23h11

Sinceridade perigosa


Al Capone – o chefe da máfia de Chicago – nos ensina que, “às vezes, ser honesto é muito perigoso”. Melhor, então, estar errado com a maioria do que certo, sozinho. É o que podemos deduzir de maneira imediata.
No seu clássico O Sentimento Trágico da Vida, recentemente lançado pela Editora Martins Fontes, Miguel de Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca, afirma que a pergunta de Pilatos, que Jesus Cristo não responde – exatamente “o que é a verdade” – é a mais profunda do Novo Testamento.
Winston Churchill, primeiro ministro do Reino Unido, dizia que “a verdade, nas atividades políticas, é um bem tão precioso que, não raro, precisa de ser protegida por um conjunto de mentiras”. A opinião de Sócrates é que “a verdade é o que é”.
Ao analisar o livro sobre Pablo Escobar – na verdade uma biografia do traficante colombiano – em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, o fotógrafo britânico nascido no Quênia, James Mollison, diz que “a verdade ainda é um produto muito perigoso na Colômbia”. Mais ou menos, na mesma linha de Al Capone. No crime, inclusive, não é bom saber a verdade.
O médico deve dizer claramente ao paciente que ele está com seus dias contados? Ou deve dourar a pílula, praticando o que se denomina de mentira caridosa? Difícil dizer. O apóstolo Paulo nos ensina que “a verdade deve se subordinar ao amor”, mesmo porque ela – não raro – chega a ser mais letal, mais mortífera do que um punhal, uma adaga ou um tiro certeiro no coração. Tenho um amigo que discute quem mente mais: os homens ou as mulheres. Certamente, a discussão estaria aberta, caso fosse posta nestes termos. Mas este mesmo amigo conclui que “os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas”.
“Mentiras sinceras me interessam”, dizia Cazuza. E se a verdade não for verdadeira? Seria preferível a verdade de Cazuza, que nada mais é do que mentiras sinceras?

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