Jornal A CIDADE

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Júlio Chiavenato

Terça-Feira, 11 de Março 2008 - 23h11

O ringue e a cena


Sábado passado houve lutas no Teatro de Arena. Sábado próximo haverá cantoria gospel na Cava do Bosque. O Teatro de Arena deveria apresentar espetáculos artísticos: exibe pancadaria. A Cava do Bosque deveria apresentar jogos esportivos: é palco de cantoria e louvação religiosa.
Além do pitoresco do fenômeno, estes sinais trocados revelam a inexistência de uma política cultural e esportiva em Ribeirão Preto. Alguns dizem que Ribeirão é uma cidade caipira. Não é bem assim: é jeca mesmo. Caipira é coisa fina, uma cultura específica e muito especial, com música de raiz e expressões artísticas e sociais que embasam o que melhor produzimos.
Mas a jequice se impôs. Tudo bem que existem áreas de excelência, na música, no teatro, até na literatura, que destoam da mediocridade dominante em Ribeirão Preto. Mas essas ilhas de excelência, algumas de qualidade notável pelo pouco apoio que recebem, são as exceções, esquecidas quando se trata de dar um sentido cultural à comunidade.
O normal e freqüente são as soluções oportunistas, levando para a “liderança” cultural personalidades políticas que não têm idéias ou propostas e, no poder, fazem o jogo acomodativo que convém ao prefeito de turno. Como a cultura não tem importância eleitoral, as omissões e erros pouco aparecem. Ou são folclóricas e resultam nesse exotismo: pancadaria no teatro, cantoria onde deveria estar o ringue.
Deixando a pancadaria para quem gosta, a cantoria que se faz onde deveria estar um ringue é das mais pobres artisticamente. São gospels jecas, paródias rudimentares das imitações dos “spirituals” dos negros norte-americanos, mas bem próximos dos interesses eleitorais da jecaria política e dos arrecadadores de dízimos. Deus nos acuda!

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