Hamilton de Andrade Lemos
Terça-Feira, 11 de Março 2008 - 23h12 Olha! Falando sério, é bem melhor você parar com estas coisas!
- Como assim? Que coisas?
- De olhar pra mim com olhos de promessas e depois sorrir como quem nada quer!
- Como você fala bonito!
Ele, com cinqüenta e três, saindo com uma gatinha de vinte e nove. Ela não tem a menor idéia de que a fala dele é ipsis literis versos do Roberto. Ele lança mão do recurso com a certeza de que sua geração é a última a conhecer profundamente a obra do Rei. Às vezes até apela com um Drummond. Geralmente cola bem.
Mas não apenas seu repertório de cantadas é anacrônico. Sua existência inteira parece ultrapassada. Na verdade, segundo as leis modernas da saúde e bem viver, não poderia estar respirando. Não malha nas academias, não come fibras, não liga o ômega 3 à pessoa e fuma um maço de cigarros por dia.
Também mantém seu toca-disco, onde ouve sua coleção de vinil. Irrita-se com a crescente falta de fitas de vídeo nas locadoras e ainda acha que bom mesmo é o Kundera. Na porta do guarda-roupa, por dentro, um pôster da Rose Di Primo com a primeira tanga de Ipanema.
Outro dia quis fazer um elogio à caixa do banco, comparando-a à Catherine Deneuve. A moça ficou olhando sem entender se aquilo era bom ou não. Ele que viu os discursos de Lula em São Bernardo do Campo, aplaudiu a abertura política nos anos 80s, saiu às ruas pelas Diretas, contra o Collor, está se sentindo deslocado com a situação do País.
A cada fala do atual presidente, agora um desconhecido para ele, fica preocupado com o que ainda pode vir por aí. Afinal, com o avanço da medicina, provavelmente viverá mais meio século. Dá uma saudade da Arena e do MDB...