Jornal A CIDADE

Leia_A_cidade

Hamilton de Andrade Lemos

Quarta-Feira, 12 de Março 2008 - 22h57

A versão que ninguém leu


A Vila Tibério, segundo nossos historiadores, é o bairro mais antigo de Ribeirão Preto. Só por isso já mereceria maior respeito, algum tipo de reverência pela sua idade. Mas acidentes acontecem, como o que houve no sistema de abastecimento de água, o que deixou seus moradores na seca por dias. Ou por séculos, de acordo com a percepção de quem sofreu o problema.
Para quem mora nos outros bairros e soube da notícia pelos jornais, a história pode ter parecido banal. O mundo é assim mesmo: na caixa d’água dos outros é refresco. Mas na Vila Tibério a coisa foi séria, com decorrências trágicas.
A falta de banho foi uma das questões mais graves. No calor de verão, o resultado foi um futum generalizado. Causou mal-estar e também mal-entendidos. Duas moradoras do bairro, descendentes de italianos, na meia-idade, dependuraram algumas peças de bacalhau atrás das janelas que dão para a rua, preparando-se para a sexta-feira da Paixão. Ao passar sob a janela, o vendedor cego de bilhetes de loteria não teve dúvidas ao cumprimentar:
- Bom dia, meninas!
Atividades físicas foram desencorajadas, assim como a venda de jogos de azar também.
Com isso, a vida sexual da comunidade ficou seriamente prejudicada. Dizem que alguns recorreram aos bairros vizinhos. É o que foi dito a boca pequena, já que, sem poder lavar as calçadas, algumas mulheres aproveitaram o tempo livre para falar mal da vida dos outros.
Enquanto isso, panelas ficaram vazias. E, ainda pior, sujas. Houve baixas entre as samambaias, avencas e hortaliças de quintal. Mas nada disso apareceu nos jornais. Só a notícia insípida e inodora de que faltou água na Vila Tibério.

  • Imprimir
  • Enviar

É proibida a reprodução do conteúdo dessa página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso sem autorização escrita da Empresa Jornalistica Orestes Lopes de Camargo S\A
ARZ