Boa Mesa
Quinta-Feira, 13 de Março 2008 - 23h33
SALA DE AULA Curso grátis reúne vários chefs de cozinha há três anos no Novo Shopping de Ribeirão Preto
Noite da última quarta-feira. Uma boa música, um bom vinho, gente bonita e descontraída conversa com o chef de cozinha. O ambiente aconchegante convida para uma boa refeição, mas o que os clientes querem mesmo é aprender a fazer o prato principal da noite.
As frutas e legumes estão minuciosamente picados e enfileirados em potinhos. O camarão também já está reservado. As panelas esmaltadas dão um colorido ao ambiente rústico de especiarias e ingredientes crus. Sinal de que logo a aula do professor Gustavo Biagi, o Gula, vai começar.
Gula, que estudou engenharia mecânica, acabou trabalhando com o setor de eventos e depois migrou para a cozinha. Quando pensava em abrir uma escola, inicialmente, sua idéia era trabalhar com a formação de mais profissionais da área, carente de mão-de-obra qualificada. Só que o chamado público gourmet logo começou a clamar por aulas também. São pessoas comuns, que não vão mudar de carreira e não têm pretensão de se tornarem chefs renomados. A idéia é poder reunir família e amigos em torno de pratos saborosos e com boas conversas. Já em 2003, ele conta que durante uma aula demonstrativa na Semana de Gastronomia do Shopping Santa Úrsula, sentiu a necessidade que Ribeirão tinha de ter escolas de culinária. No ano passado ele criou a sua própria empresa para ensinar as pessoas a cozinharem. A fase experimental da escola foi um sucesso. Cerca de 400 pessoas passaram por suas aulas.
Na sua opinião, o interesse das pessoas pela culinária fica aguçado na medida em que cozinhar deixa de ser uma obrigação e, paralelamente, casas e apartamentos são construídos com a cozinha gourmet, projetada especialmente para reunir família e amigos enquanto os pratos são preparados.
- Hoje você consegue comer muito bem e por um bom preço em qualquer lugar. Já não existe aquela obrigação de cozinhar no dia-a-dia. Acho que o que leva as pessoas a buscar essas aulas é o prazer de cozinhar para os amigos e a família, disse Gula.
Um pouco de história
Nas aulas, a parte teórica fala um pouco da história de cada prato ou ingrediente. Depois vem a parte prática. Cada aluno tem uma bancada com um fogão portátil e todos os utensílios necessários. É nessa hora que os alunos “colocam a mão na massa”, sem receita.
- Eu dou a apostila só no final porque quero que eles aprendam a dar o ponto nos pratos. A escola tem essa função, disse Gula.
Entre os alunos, um grupo mesclado de homens e mulheres. A aula de quarta atraiu o público A e B, mas Gula conta que em breve vai realizar um curso com pratos mais simples para o dia-a-dia, cujo público alvo será as empregadas domésticas.
- Eu sempre digo para os meus alunos que não precisa ter ingredientes caros. A culinária em sua essência é algo muito simples. E não tem jeito, cozinhar é tentativa e erro, diz o chef.
Para se manter atualizado, Gula investe em livros, cursos e em muita conversa com amigos que trabalham em restaurantes. No mês passado, por exemplo, ele esteve em Ambruzzo na Itália, para mais um aperfeiçoamento.
Gula ainda conta com a ajuda de vários funcionários durante a aula como o personal chef Rodrigo Correa Franco Guimarães, que reforça o auxílio aos alunos enquanto eles cozinham. Guimarães conta que em escola de gastronomia é preciso ter muita atenção com a reposição dos alimentos e até mesmo com o gás dos fogões portáteis. Os chefes precisam pensar em todos os imprevistos para não prejudicar o andamento da aula.
- Temos que ter sempre ingredientes prontos para fazer a reposição e isso também vale para os utensílios, como facas e pratos, e para os pequenos botijões de gás.
Em média a aula, que dura duas horas e meia, sai por R$ 60, com direito a acompanhante.
Mão na massa
A estudante de administração Carolina Fava e o namorado Alexandre Galhardo começaram a ficar sem jeito quando iam à casa de amigos. Eles começaram a perceber que nas reuniões, nunca podiam ajudar porque não sabiam cozinhar. O relacionamento com a cozinha só começou a melhorar quando o pai de um amigo do casal os ensinou a fazer risoto. O primeiro passo estava dado. Depois de fazer alguns risotos para a família e os amigos, os dois decidiram se arriscar em outros pratos e começaram a se interessar por culinária ao ponto de procurarem por aulas especializadas.
Carolina conta que sempre teve simpatia pela cozinha e que, apesar de sua mãe não cozinhar, sempre observava e até tentava ajudar a avó ou as empregadas no dia-a-dia da cozinha.
- A gente gosta muito de reunir a família e os amigos para cozinhar. Na minha casa agora acabou essa coisa de ficar isolado na cozinha e depois aparecer com o prato pronto. A gente leva o fogão e fica todo mundo junto. É melhor do que restaurante, disse Carolina.
A estudante afirma ainda que não aplica o que aprende no dia-a-dia, mas sim nas reuniões sociais e que um dos diferenciais está em ter tempo para poder deixar os ingredientes separados e bem cortados, sem a pressa do cotidiano.
O arquiteto Alvaro Carvalho conta que não tem perdido uma aula sequer do chef Gula. Ele, que vai para o fogão há cerca de dez anos, não se acha um grande cozinheiro, mas afirma que adora mexer com culinária e que se considera esforçado.
- Acho que as coisas estão mudando e as pessoas estão cada vez mais interessadas em cozinhar. Os novos imóveis já vêm até com a cozinha gourmet, avalia o arquiteto.
Opção
Shopping oferece aulas gratuitas de culinária
Outra opção para quem gosta de cozinhar são as aulas gratuitas e pontuais do Novo Shopping.
O curso, que reúne vários chefs, existe há três anos dentro da Central de Cursos. Segundo o gerente de Marketing, Márcio Almeida, o curso corresponde a 90% das atividades da central e foi criado com o objetivo de fidelizar os clientes.
Um dos professores, o chef Tom Bessi, afirma que o ribeirão-pretano gosta e sabe comer bem, daí o grande número de pessoas interessadas em cozinhar. Para ele, existe uma curiosidade natural sobre culinária na cidade.
- Acho que também houve uma mudança de perfil em todo o mundo, por isso esse boom da gastronomia. Ao mesmo tempo em que ser chef passou a ser glamouroso, a gastronomia também passou a ser mais acessível, afirma Bessi.
O chef é publicitário de formação e professor de inglês. Ele conta que as aulas podem ser aproveitadas tanto por alunos experientes na cozinha quanto pelos iniciantes. De acordo com Bessi, o interesse, normalmente, é tão grande por parte dos alunos que faz com que os iniciantes se nivelem aos mais experientes. Essa seria uma das grandes diferenças entre as antigas aulas de Inglês e suas atuais aulas de gastronomia.
- É meio massante ficar três horas vendo uma aula de culinária, por isso quem participa é porque gosta mesmo. As aulas acabam ficando homogêneas também porque instigam sabores e instintos nas pessoas, disse Bessi.
Nas aulas oferecidas pelo shopping, os alunos assistem as explicações sentados e é possível acompanhar o passo-a-passo por meio de um espelho colocado a 45º sobre o fogão onde o chef cozinha.
Ele revela que tem, por exemplo, muitos alunos com larga experiência na cozinha. Além de ensinar e fazer questão de “abrir” seus segredos de culinária, ele também acaba aprendendo coisas novas com os próprios alunos.
É uma experiência enriquecedora porque sempre tem alguém, alguma senhora que cozinha há anos, que fala sobre o jeito diferente como faz determinado procedimento. É muito bom porque é impossível saber tudo e cada um desenvolve seu próprio estilo de cozinhar, afirmou o professor, que prefere pratos mais elaborados, estilo bistrô, e que se mantém atualizado lendo publicações sobre culinária.