Caderno C
Sabado, 15 de Março 2008 - 15h19
INDIVIDUAL NO SESC Alex Benedito dos Santos mostra seus trabalhos em exposição no Sesc Ribeirão
Na noite da última quinta-feira, ele não se agüentava de tanta felicidade. Com um sorriso escancarado e visivelmente nervoso, o artista plástico Alex Benedito do Santos agradecia a todos que estavam presentes na abertura de sua exposição no Sesc Ribeirão.
- Preciso tomar um calmante, porque estou muito ansioso. Isto aqui parece um sonho, disse ao repórter, com sua humildade típica.
Alex, 28 anos, foi o artista selecionado, entre vários que participaram da Mostra da Juventude do Sesc ano passado, a realizar uma mostra individual com o que há de mais representativo em seu trabalho.
São 16 obras que surpreendem pelo radicalismo e autenticidade. Alex prova mais uma vez que não há meio termo em sua produção, porque incomoda e provoca. O público presente a vernissage reagia de várias formas.
- Olha só, uma cama, apontava um garoto aos amigos ao se deparar com um dos trabalhos mais incomuns de Alex.
Sucata
“A Cama” é uma das obras preferidas do artista nascido e criado na periferia de Jaboticabal. Montada com todo tipo de sucata encontrada na rua, retrata uma das obsessões de Alex: a dor de viver.
- Esta obra fala do sofrimento das pessoas provocado pelas doenças, drogas e a bebida, explica.
Outro trabalho do rapaz - com certeza, um dos melhores da exposição - é “O Homem é Animal, o Gato é Humano”, no qual mostra Jesus Cristo cercado de gatos. Alex confeccionou uma tela de quase dois metros com roupas doadas pela mãe. A imagem é quase que uma alucinação religiosa e não adianta nem procurar uma explicação para aquilo.
- Quando as pessoas morrem os gatos choram. São criaturas muito, como se diz, sensitivas, argumenta.
Medo
Apesar do clima surrealista de várias de suas obras, o artista jura que tudo é baseado na realidade. Ou pelo menos, na interpretação que ele faz do duro cotidiano das pessoas.
- Falo de aborto, acidente de carro, drogas e bebida alcoólica. Vivo num mundo de medo, afirma.
Para reproduzir este estado de constante tensão, o jaboticabalense abusa de materiais inusitados como telhas de barro e papel higiênico em “Entre o Bem e o Mal” ou um painel gigantesco com papelões em “A Favela do Mundo”.
- É a melhor exposição da minha carreira, garante Alex, acompanhado dos pais Benedito de Jesus Santos e Cleonilda Pereira.
Espírita, o funcionário público Benedito revela que o talento do filho tem raízes kardecistas.
- É um dom que vem de pintores que já desencarnaram, acredita.
Ajuda
A família de Alex só pode comparecer a abertura da exposição graças a uma ajuda da prefeitura de Jaboticabal no transporte. De resto, o artista continua no mesmo estado de penúria de sempre, fazendo bicos e contando com patrocínio de amigos e instituições.
Alex recebe até hoje uma pequena ajuda de custo da Faculdade São Luís, onde chegou a estudar artes plásticas. São 150 reais que basicamente lhe garantem o mês, quando não consegue vender algum de seus quadros. O artista dá oficinas na Apae de sua cidade e consegue apoio também do restaurante Mama Mia que concede espaço para exposição e alimentação.
- O Alex é um batalhador. Ver ele trabalhando é um barato, ressalta o proprietário do restaurante, Marcos Durigan.
Documentário
Marcão, como é chamado, conheceu o amigo há seis anos, quando o rapaz começou a despontar em mostras primitivistas. Um artista de Jaboticabal que hoje vive no Ceará, Sigbert Franklin, havia comentado sobre o jovem artista, o que despertou a curiosidade do dono do restaurante.
- Fiquei sabendo que ele ganhava a vida carpindo e resolvi comprar alguns quadros e dar espaço para ele expor, recorda.
Marcão diz que muita gente, principalmente de outras cidades, vai ao restaurante apenas para conhecer a obra de Alex. O amigo fez até um documentário sobre o jovem artista, exibido na noite de quinta-feira no Sesc.
- Ele é um cara muito sensível. Seu trabalho é maravilhoso e muito rico em cores, diz.
Artur Bispo
Para o fotógrafo e artista plástico Fanca Cortez, presente na abertura da exposição, a obra de Alex lembra muito a do artista Artur Bispo do Rosário, que produziu a vida inteira na Colônia Juliano Moreira, onde foi interno por 50 anos.
- Goste-se ou não, é impactante, garante.
Fanca não concorda com o rótulo de näif ou primitivista para o trabalho do jaboticabalense.
- Pra mim, esse negócio de näif não existe mais. O trabalho dele é expressivo pra caramba, mas pouco comercial, acredita.
Sem rótulos
Especialista diz que obra é inclassificável
A pesquisadora e artista plástica paulistana Thais Rivitti, que fez parte da comissão que selecionou o trabalho de Alex Benedito para a exposição individual no Sesc afirma que a obra do rapaz vai muito além do termo näif.
- Evidentemente o considero um artista contemporâneo. Achei, aliás, extremamente interessante observar o modo com que ele aborda criticamente alguns aspectos da contemporaneidade, escreve em resposta enviada por e-mail para o Caderno C.
Açougue
Thais menciona como significativa a obra “O Açougue da Vida das Vacas e do Homem” que não está presente na exposição atual, mas fez parte da Mostra da Juventude do ano passado.
- Existe a comparação insinuada da escola como um açougue e a exposição da violência que a idéia de educação (usada às vezes como conformação a um modelo estabelecido) pode ter. Acho que essa discussão que a obra propõe é bastante pertinente, ressalta.
A artista diz ainda que Alex lança mão de técnicas que desafiam o olhar ingênuo do primitivismo.
- O uso da escrita como mais um elemento gráfico no quadro e a falta de preocupação com o acabamento final são procedimentos bastante interessantes, oriundos do repertório da arte contemporânea, conclui.
SERVIÇO
Alex Benedito dos Santos
De terça a sexta, das 13h30 às 21h30. Sábados e domingos, das 9h30 às 17h30. A exposição pode ser visitada até o dia 30 de março. Entrada gratuita. Inf.: (16) 3977-4477.