Jornal A CIDADE

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Classe A

Sabado, 15 de Março 2008 - 16h30

Parabéns, Maestro!

MATHEUS URENHA Parabéns, Maestro!

Cláudio Cruz, regente da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, completa hoje exatos 41 anos. Filho de uma pianista de igreja e de um construtor de instrumentos, quando jovem era chamado de “filho do Cruz”. Hoje, o luthier virou “pai do Cruz”, o que prova que o sobrenome tem uma grande força. Ou que a família tem muito talento. Além de maestro, Cláudio Cruz é o primeiro violinista da principal orquestra brasileira, a Osesp- Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Também se notabiliza por trilhas sonoras para o cinema, como a que solou para o filme “O Xangô de Baker Street”. Além disso, já gravou discos com repertório brasileiro- e clássico- para o grande mundo internacional. E tem um sonho: conseguir um teatro próprio para a Sinfônica de Ribeirão Preto. Aos 70 anos, ela merece.

Angelo Davanço - Maestro, onde o senhor nasceu?
Cláudio Cruz - Eu nasci há exatamente 41 anos, neste domingo eu faço 41 anos. Nasci em São Paulo, filho de uma mulher descendente de espanhóis e um pai baiano. (risos)

Angelo - Bela mistura.
Cláudio - Exatamente, meu pai era construtor de violinos, um luthier, e minha mãe tocava piano de forma amadora, no melhor sentido da palavra amadora, porque ela tocava na igreja, e meu pai tocava violino, ele constrói e toca também um pouco em casa. Eu comecei a estudar piano, com sete, oito anos, e quando meu irmãozinho mais novo começou a estudar violino, aí eu me encantei. Ele tem muito talento e em dois meses estava tocando violino, então eu larguei o piano e fui tocar violino. Com uns dez para onze anos eu comecei a estudar violino.

Angelo – Seu pai ainda fabrica instrumentos?
Cláudio - Sim, ele continua fabricando, ele vende, vendia sua produção para os Estados Unidos. Meu pai está com 75 anos.

Angelo - Como ele se chama?
Cláudio - João Pereira Cruz. Ele teve alguns problemas de saúde, porque ele é diabético, então eu o trouxe para Ribeirão, onde posso dar uma assessoria bem legal para ele.

Angelo - O seu caminho para a música foi bem natural.
Cláudio - Foi natural. O engraçado é que grande parte dos amigos do meu pai, que vinham visitá-lo, para consertar violinos, arcos, ou mesmo comprar violinos, alguns anos depois, estão trabalhando comigo na orquestra sinfônica, isso foi meio engraçado. Eu fiquei conhecido inicialmente como o filho do Cruz, e agora sempre que meu pai aparece no meio musical, as pessoas dizem - ele é o pai do Cruz.

Régis – O Cruz continua.
Cláudio - O Cruz continua, mas somos uma boa cruz. Meu pai constrói violinos e eu construí muitas coisas, eu consegui construir algumas orquestras, alguns quartetos, consegui fazer algumas coisas bonitas, gravar alguns CDs para o nosso país, consegui divulgar muito a música brasileira, os CDs todos de Villa-Lobos que eu já fiz, Lourenço Fernandes, Nepomuceno, enfim, a gente está dando continuidade a este projeto formidável que é ter uma orquestra sinfônica.

Angelo - Como foram seus estudos, a sua formação na área musical?
Cláudio - O meu pai é um homem muito exigente, muito bem intencionado, e ele é muito observador. Ele conseguiu passar para mim, ele foi meu professor até determinado ponto, depois de dois anos eu estava tocando muito melhor do que ele, mas ele continuou sendo um bom orientador e realmente devo muito a meu pai, porque quando eu fui estudar com o Eric Lehninger, que é um violinista alemão, mas que vive no Brasil há muito tempo, ele é o violinista do Trio Brasileiro, é um violinista muito interessante. Quando eu fui estudar com o Lehninger, ele me falou - olha, você não tem nenhum defeito. Hoje eu sou professor também e entendo o que ele me disse na época, porque todo aluno vem com algum defeito, ou segura o arco de uma maneira incorreta, ou tem uma postura na mão esquerda, enfim, eu cheguei lá e ele falou - você não tem nenhum defeito, eu só vou dar continuidade pois seu pai fez um belo trabalho. Eu estava ali com 15 anos e com 16 anos eu fui para o Rio para estudar com o Lehninger, eu fui morar sozinho ainda adolescente e fui tocar na orquestra jovem da Funarj. No primeiro ensaio que fiz na orquestra, o saudoso maestro Davi Machado falo - menino, você aí de trás, venha aqui tocar na primeira estante. Eu toquei na primeira estante e nunca mais saí. Na primeira orquestra que eu toquei já virei spalla, aos 16 anos. Aí eu voltei para São Paulo com 18 anos, fiquei uns dois, dois anos e pouco no Rio e aí já fiz o teste para a Orquestra Municipal, entrei, fiquei uns dois, três meses, eles não conseguiram me contratar porque eu estava naquela idade de alistamento militar, a prefeitura não tinha como me contratar, então entrei para a Osesp em 1985, estou lá até hoje.
Régis - O senhor não tem faculdade?
Cláudio - Não, não tenho faculdade. Quando eu fui para o Rio, eu tive que fazer uma opção muito drástica. Por exemplo, Antonio Menezes fez a mesma opção, com a mesma idade, porque quando você se vê com 15 ou 16 anos, e você não está ainda fazendo carreira, não está tocando com as grandes orquestras, não está gravando, não está com o repertório todo estruturado, você se sente atrasado, pensa em dar um salto, é uma coisa da adolescência. Eu vejo meus alunos também, eles sentem muito isso e hoje eu os aconselho a estudar, é importante ter essa formação acadêmica, mas naquela época ainda tinha aquele sonho de aprender estudando muito. Eu estudei 13 horas por dia, no mínimo dez. Realmente eu não fiz mais nada, eu somente estudei violino e foi importante porque dois anos depois eu fiz o concurso Eldorado e fui finalista do concurso.

Angelo - É impressionante essa sua determinação. Um adolescente no Rio de Janeiro, nos anos oitenta. Como era concorrer com tudo o que a cidade oferecia?
Régis - O senhor não ia ao Circo Voador?
Cláudio - Olha, eu sou de uma família muito religiosa, então realmente eu era muito focado. Eu para o Rio para estudar, eu não fui para o Rio para ir à praia. Então eu fui para a praia umas duas vezes, mas a turma, imagine, eu tive todo tipo de apelido no Rio de Janeiro. Imagina um paulista vestindo calça de tergal, sapato, camisa, eu fui de terno na primeira aula. Eu era crente, eu sou crente ainda, eu sou completamente crente em Deus. Eles me chamavam de “Cruz Cráudio” lá no Rio (risos). Mas valeu a pena, eu estudei, eu pude aprender a tocar em orquestra, com um dos maiores maestros que já existiram no país, Davi Machado, depois eu fiquei alguns meses com um dos melhores que o Brasil tem, que é o Isaac Karabtchevsky, e trabalhei mais de dez anos com Eleazar de Carvalho. Eu tive uma grande sorte.
Régis - Mas nesta idade a regência já era um objetivo seu?
Cláudio - Regência não, mas eu tinha um plano na minha vida que era ser spalla da Osesp. Era o meu sonho de adolescente. E isso aconteceu logo, com 22 anos. Em 15 de março de 1990, o maestro Eleazar, eu estava nos Estados Unidos, porque depois de algum tempo eu tive a necessidade de fazer cursos de aperfeiçoamento, então eu trabalhava nas orquestras, tocava em restaurante, eu fazia tudo o que você pode imaginar para juntar dinheiro, em dezembro, janeiro e fevereiro eu ia para fora do Brasil, pagava cem dólares cada aula, mas eu tive essa força para me aperfeiçoar e numa dessas vezes eu estava nos Estados Unidos, em Houston, no Texas, liguei para o maestro Eleazar e ele me falou - professor Cruz, a cadeira de spalla lhe aguarda no Brasil. O que o senhor está fazendo nos Estados Unidos? Eu disse que estava estudando, havia a possibilidade de ficar por lá. Ele falou - não, apresente-se no dia 15 de março.
Angelo - E como foi a sua vinda para Ribeirão Preto?
Cláudio - Minha vinda para Ribeirão Preto aconteceu da seguinte maneira: eu, com 30 anos, já tinha realizado grande parte dos sonhos de adolescente que eu tinha como violinista. Eu já havia tocado concertos de Tchaikovsky diversas vezes, concerto de Brahms, concerto de Beethoven, os maiores concertos de violino com muitas orquestras, já tinha viajado para a Alemanha, para vários países da Europa, já tinha gravado CD na Itália, eu estava bem feliz e aí comecei a ter alguns problemas que eu sofro até hoje de coluna, de tendinites e coisas que eu sofro até hoje. E aí um médico muito famoso em São Paulo me falou - olha, o violino, em algum momento, vai acabar em sua vida, você precisa começar a fazer esportes ou começa a pesquisar uma outra profissão. Foi um negócio meio forte, isso foi em 95 e eu já era diretor da Orquestra Villa-Lobos, que eu regia com o violino, eu sentava de spalla e dirigia a orquestra. Aí, quando eu ouvi esta fatalidade, este aviso, eu cheguei em casa e comecei a pensar no que eu faria na minha vida se eu não conseguisse mais levantar o braço. Enfim, eu pensei na regência e em 96 comecei a atuar como regente, que foi um passo. Eu saí da cadeira de spalla e subi no pódio. Em 98 eu já tinha assim uns dez concertos para reger e aí o Rubens Ricciardi ficou sabendo que eu estava regendo, foi quando o Roberto Minczuk saiu daqui, ele falou comigo, mas eu disse que não queria sair de São Paulo. Aí veio o Norton Morozowicz para cá, mas o Norton parece que não deu muito certo aqui e em 2001 o Rubens me disse - olha, não deu certo, e é agora ou nunca. E a gente estava num momento difícil na Osesp, que tinha acabado de acontecer aquelas demissões lá, daqueles sete músicos, em agosto. Então eu fui falar com o Neschling, dizendo a ele que queria reger mesmo e que estava com a possibilidade de ir a Ribeirão Preto. Ele falou - vá. Me deu a maior força, sempre me deu muita força o Neschling. Ele me perguntou o que eu queria fazer. Eu disse - olha, vou ter que sair daqui. Ele falou - não, não saia, você faz pra mim as gravações, as turnês e você vai para Ribeirão Preto, se você gostar de lá a gente faz um outro acordo. E assim eu fiz, eu vim para Ribeirão Preto em 2001.

Angelo - O senhor já conhecia o trabalho da orquestra de Ribeirão?
Cláudio - Eu já havia tocado uma vez, com a orquestra, o concerto de Tchaikovsky, com o Roberto Minczuk regendo.

Angelo - E depois, já trabalhando, qual foi a sua primeira impressão?
Cláudio - Num primeiro momento eu me assustei, pois a orquestra que o Roberto regia era uma, a orquestra que o Norton deixou era outra. Eu respeito muito o Norton como músico, mas o regente precisa ser muito firme, ele precisa impor a sua marca mediante o seu carisma, ele precisa manter o alto nível de uma orquestra. Instrumentistas em geral têm dificuldades com isso, então, no caso o Norton, que é um excelente flautista, ele sempre tem dificuldade em se colocar como maestro.

Régis - O senhor acredita que quando as pessoas falam da Nova Osesp dizem que isso foi um trabalho do Neschling, mas isso foi um trabalho do Neschling ou foi uma vontade política?
Cláudio - Olha, se o Mário Covas não tivesse decidido, não existiria Osesp. O governo gasta mais de 40 milhões com a Osesp, é um bocado de dinheiro. A nossa orquestra aqui custa dois milhões e meio. A Osesp gasta 55 milhões por ano. É muito dinheiro e naquele momento em que o Mário Covas falou - não, eu vou pagar sim, a idéia é que a iniciativa privada adote a orquestra, mas se isso não acontecer o governo vai pagar pois está na hora de termos uma orquestra de nível mesmo no Brasil, está na hora da gente exportar a nossa cultura. E eu estava na frente dele quando ele falou isso, ele falou isso de frente para a orquestra, para uma platéia cheia de jornalista. Então o Mário Covas foi o governador que acreditou, o Neschling foi o cara que trouxe o know-how, foi o bandeirante.

Régis - Muita gente critica a Osesp porque ela é uma orquestra muito cara para um país de terceiro mundo e o Neschling tem um salário milionário. O que o senhor acha desse tipo de crítica?
Cláudio - É complicada essa crítica. Cada pessoa tem o seu preço. Eu vejo, por exemplo, quanto se paga para um jogador de futebol, quanto se paga para um alto executivo, ou quanto o governo gasta com projetos, às vezes, que eu nem sei se de fato eles são sociais ou não, se são eleitoreiros. O Neschling se dedicou desde criança, ele nasceu numa família privilegiada, depois ele estudou em Viena, e outra, ele é um cara que trabalha de manhã até de noite, um cara que efetivamente fez alguma coisa. Gente, ele gravou 27 CDs, é um cara que botou a orquestra para fazer turnês pelo mundo e a orquestra está sendo reconvidada para todos estes lugares.
Angelo - O maestro acaba sendo um administrador de vaidades dentro de uma orquestra?
Cláudio - Sem dúvida. O músico é um ser complicado. Veja bem, ele fica minimamente durante dez anos num quarto sozinho, olhando num espelho, se ouvindo. É um cara voltado para dentro de si próprio. De repente ele senta numa orquestra e precisa dividir com os outros. É óbvio que vai acontecer alguma confusão ali. Então o regente, quando ele é músico de orquestra, ou foi músico de orquestra, ele consegue ter uma compreensão um pouco melhor. Agora, sem dúvida, ele vai ter que lidar com essas vaidades, essas idiossincrasias. E não é só isso, esse não é o pior problema do regente, ele tem que lidar com a vaidade dos administradores também. Veja bem, o público acha que a orquestra de Ribeirão Preto é deles, a prefeitura nos dá uma subvenção e eu agradeço muito, mas não é o dinheiro total que nós necessitamos, mas o público acha, os associados, e mandam e-mails diariamente, perguntando porque não fazemos alguns concertos, mas em alguns precisamos de uma orquestra que seja o dobro da nossa.

Angelo - Vocês lançaram CDs agora.
Cláudio - Sim, lançamos dois CDs. Fazer CD de uma orquestra que já tem 70 anos é uma coisa que envolve alguma reflexão, principalmente de um quadro de associados e pessoas assim que estão muito habituadas a ouvir orquestra, adoram a orquestra e eu pensei - o que gravar? Lógico que o meu amigo Rubens Ricciardi disse - vamos gravar música brasileira, música de vanguarda. Mas eu falei - não, vamos gravar alguma coisa que seja extremamente comercial e que possa representar muito a orquestra. E eu gravei uma coisa que, como a Sinfonia 40 de Mozart, que grande parte das orquestras do mundo teria muito medo de tocar. Muita ousadia, pois é muito difícil de gravar, é uma delícia tocar, mas gravar é muito difícil, e a 5ª de Beethoven, que seriam duas obras extremamente conhecidas e que festejariam os 70 anos da orquestra. O outro CD, coletânea, é o repertório que a orquestra mais faz, mais toca, e são músicas que eu gosto, que o público gosta, que a orquestra gosta de tocar e toca bem.

Angelo - O que o senhor acha da Sinfônica apenas se apresentar no Pedro II e não ter o teatro como a sua casa natural?
Cláudio - Isso aí é normal, é assim no mundo inteiro. Difícil uma orquestra que tenha um teatro que não é dela, que é da prefeitura, o tempo inteiro. É muito difícil. Eu não me sinto muito confortável vendo o teatro sendo utilizado para shows e coisas não adequadas para ele, é um teatro de ópera, que pode ser utilizado para peças de teatro, para ópera, para balé, acho que é para isso que serve o Theatro Pedro II. Alguns podem até achar que isso é polêmico, mas eu acho que ele é um teatro de ópera e não um teatro de shows. Então eu acho que a orquestra poderia utilizar um pouquinho mais o teatro, sim, mas eu acho que o teatro precisa estar aberto para os outros conjuntos, corais, que têm em Ribeirão Preto, e acho que a orquestra tinha que ter o seu teatro. Espero que um dia a orquestra possa ter uma sede, quem sabe um teatro para os seus trabalhos. Esse é o nosso sonho.

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