Júlio Chiavenato
Sabado, 15 de Março 2008 - 17h40 Segundo Camões o homem é um “bicho da terra tão pequeno”. Mas certos autores cariocas exageram. Bastou o Estado anunciar a comemoração dos 200 anos da fuga da corte portuguesa para o Brasil, que eles aderiram à festa e João VI, de glutão idiotizado, casado com uma megera que escolhia amantes entre os serviçais e ostentava um belo bigode, filho medroso de mãe louca, passou a sábio que abriu os portos e fundou o Brasil “moderno”.
O que uma graninha extra faz! Entre esses historiadores de ocasião deve haver ingênuos que acreditam nas suas patranhas. O que não muda duas realidades: a histórica, da fuga tragicômica, da viagem entre vômitos e piolhos; e a atual, com revisores de última hora dando sentido heróico e “equilibrado” a uma corte caricata submissa à Inglaterra.
João VI fugiu de um exército que literalmente morria de fome. O general Junot, comandante dos franceses, deixou relatos contando que seus soldados estavam famintos e doentes, mal podiam carregar as armas. Qualquer portuguesinho armado de varapau poria os franceses a correr.
Foi um bom negócio para os ingleses. “Protegeram” a fuga, arrancaram os tratados comerciais que lhes interessavam, inclusive a abertura dos portos e o controle do comércio exterior brasileiro. De lambuja instalaram uma base militar na Ilha da Madeira. Ao perderem o Brasil para os Estados Unidos, consolaram-se com a quase totalidade das vinícolas portuguesas.
Carla Camurati está certa: seu filme Carlota Joaquina é o retrato mais fiel da corte portuguesa. Mas as efemérides fascinam os oportunistas que fazem alegremente a vassalagem. Para saber porquê, leiam Os donos do poder, de Raymundo Faoro, um livro convenientemente esquecido nestes tempos de adesão a tudo.