Caderno C
Quarta-Feira, 19 de Março 2008 - 23h2
VIA CRUCIS Paulo César Coelho deve viver pela última vez o papel de Jesus Cristo em Ribeirão Preto
Sexta-feira da Paixão tem destas coisas. Antes de ser “promovido” a Jesus Cristo na Caminhada do Calvário de Ribeirão Preto, Paulo César Coelho revezou-se na dupla função de interpretar os ladrões Dimas e Jestas por 16 anos.
- De tanto fazer o ladrão, acabei roubando o papel de Cristo, brinca.
Mas depois de uma década de chibatadas, crucificações e ressurreições, sua missão como Cristo pode se concluir este ano. Tudo por causa da distância, já que nos últimos anos Paulo passa a maior parte do tempo fora da cidade. Dono de uma empresa de montagem de estrutura metálica, vive atualmente em Salto, região de Sorocaba, e nos próximos dias deve mudar-se para o Rio de Janeiro.
- Na verdade, desde o ano retrasado falo que vou deixar o papel e sempre volto atrás, recorda.
Paz interior
Paulo é o terceiro Cristo em 26 anos de Caminhada do Calvário em Ribeirão. Assumiu o personagem em 98, logo após Washington Luis Alves de Andrade, que ficou por dois anos, e Rubens Guerra, criador da caminhada na cidade e Jesus por quase 15 anos. Foi convidado para assumir o papel principal da encenação pelo diretor e produtor Osmani Antônio de Oliveira e revela que foi a melhor coisa que aconteceu em sua vida.
- Minha vida mudou bastante desde então. A gente cresce interiormente sem se dar conta. Este papel me trouxe felicidade e paz interior, garante.
Católico praticante, Paulo deixou a barba e o cabelo crescerem e, aos 46 anos, tenta manter o peso abaixo dos 80 quilos. Nos últimos dias perdeu quase sete quilos para não se tornar um profeta rechonchudo.
- Não sei se sou um bom Cristo, mas faço o possível, diz.
Ensaios
Bom ou não, o fato é que Paulo é bem parecido. Tanto que quase roubou a cena na Paixão de Cristo que encenou em Salto no último final de semana. No papel do apóstolo Judas Tadeu, teve que colocar uma espécie de turbante na cabeça para esconder o cabelo.
Desde janeiro, Paulo vem para Ribeirão todos os finais de semana para participar dos ensaios. Apesar dos 26 anos de caminhada, revela que toda apresentação é uma experiência nova.
- Sou tomado pela emoção e é uma choradeira só. Esqueço até quem sou eu, conta.
As cenas que mais o emocionam são a Santa Ceia, a crucificação e os encontros com os apóstolos e com as mulheres santas. Gosta tanto que mesmo se deixar o “cargo” de Jesus Cristo, não quer se afastar do espetáculo.
- É uma tradição de família. Até minha mãe de 80 anos participa da encenação, diz.
Paulo só faz um pedido: um maior investimento da Prefeitura na infra-estrutura.
- Acho que deveria haver um maior capricho no som, na luz e nos cenários, ressalta.
Concurso
Incertezas à parte, o produtor e diretor Osmani Oliveira garante que este é o último ano de Paulo César no papel. E vai além, propõe um concurso público para a escolha do próximo Cristo.
- Antes, era uma escolha aleatória feita por nós mesmos entre candidatos que conhecíamos, mas acho que deve haver mudanças, defende.
Professor aposentado, Osmani dirige o espetáculo criado pelo mineiro Rubens Guerra há 26 anos. Foi ele que convidou o amigo de infância Washington Andrade para substituir Guerra, quando o ator ficou doente.
- Além de ter todas as características de Cristo, Washington era muito talentoso, mas ele teve um infarto e resolveu se afastar, conta.
Osmani também elogia Paulo César.
- Além de talento tem muita humildade. Não gosta de ser estrela, afirma.
Voluntário, como todo o resto dos 160 integrantes do elenco, Osmani comanda o Centro Cultural Arco Íris, entidade que organiza a caminhada em parceria com a Prefeitura.
- Sou um ecumênico e tenho paixão pela história judaico-cristã. Pra mim, Jesus é um só e Deus Também, filosofa.
Serviço
26ª Caminhada do Calvário
Amanhã, a partir das 16h
Saída da Esplanada do Theatro Pedro II
Trajeto: rua Álvares Cabral, rua General Osório, rua Garibaldi, rua Marechal Hermes, rua Henrique Dumont, avenida Meira Júnior e Via São Bento – Morro do São Bento
História
Caminhada em Ribeirão nasceu de uma promessa
A Caminhada do Calvário em Ribeirão Preto surgiu de uma promessa que o ator Rubens Guerra, já falecido, fez pela saúde de sua mãe e tornou-se tradição na cidade.
Em cada etapa da encenação, além de representar a via crucis, o diretor Osmani Antônio de Oliveira ressalta problemas atuais, como a miséria, fome, guerra, desigualdades, violência, ódio, terrorismo e injustiças, porém visando à fraternidade.
Início na esplanada
A história é apresentada, inicialmente, em um palco montado na Esplanada do Theatro Pedro II, na região central da cidade.
O público acompanha a caminhada até o Morro do São Bento, onde a estrutura e objetos cênicos montados remetem às cenas da Crucificação, Morte, Sepultamento e Ressurreição de Cristo.
A última cena, a Ressurreição de Cristo, é acompanhada por efeitos pirotécnicos.