Jornal A CIDADE

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Vicente Golfeto

Quarta-Feira, 19 de Março 2008 - 23h38

Carrinho cheio de empáfia


Certa vez perguntei a um amigo, dono de um armazém, qual a maior dificuldade que ele encontrava para competir com as grandes redes. Seu único ponto era um pequeno espaço. A rigor, nem loja de secos e molhados podia ser chamado. Era mais uma venda à moda antiga dos tempos da minha infância. E ele, de cara, respondeu: “os carrinhos”. Ele não tinha área física para que os consumidores se mostrassem usando carrinhos cheios de mercadorias.
Fiquei encabulado. Afinal, seu estabelecimento tinha também preços competitivos. Era bom o serviço de entrega – mais ou menos como se diz: delivery – e até competitivo no atendimento. Voltei outro dia e lhe perguntei: por que o carrinho tem tanta influência? A resposta me vez cair duro: “porque as pessoas – nem todas – gostam de demonstrar que têm dinheiro, exibindo-se com carrinhos cheios”. Mas, mesmo assim, não acreditei que a estupidez humana pudesse atingir tal patamar. Mas o duro é que atinge.
Andando por lojas de supermercado, comecei a perceber as pessoas – homens, mulheres, jovens, maduros, classe média principalmente – se mostrando, mostrando o latifúndio de estupidez em torno dos carrinhos abarrotados de mercadorias.
O jornal Folha de São Paulo, do dia 25/11/2007, traz entrevista com o antropólogo italiano Massimo Canevacci, da Universidade La Sapienza, de Roma.
Ele diz claramente: “uma pessoa vai a um shopping center, a um supermercado, não somente para comprar coisa, mas para consumir comunicação, para se mostrar.” “E isto na Itália do Renascimento, o que nos permite – mais ou menos – extrair uma conclusão clara: o ser humano está tendo o mesmo comportamento neste início de século 21 que já demonstrara no final do século anterior.
Já não há mais dúvidas: as pessoas fazem mais questão de aparecer do que de serem ricas. Agora o importante mesmo é aparecer e fazer os outros acreditarem que são ricas. Ridículo.

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