Hamilton de Andrade Lemos
Quarta-Feira, 19 de Março 2008 - 23h39 Para os devotos, a quaresma chega ao fim e, com ela, algumas restrições alimentares a título de sacrifício. Este não é meu caso, embora tenha passado todos estes dias sem comer carne, porém por motivos mais mundanos: o preço do filé. Mas se, por um lado, não pude entregar-me aos prazeres da carne, pelo menos amanhã teremos uma comemoração à altura da data. Bacalhau, em qualquer receita, é minha paixão gastronômica, gosto que reservo para ocasiões especiais, menos por requinte e mais pelo preço. De novo, a barreira financeira ao consumo. Mas veja como o mundo dá voltas. No tempo de meu avô, comida de pobre era bacalhau e azeite de oliva. Nas fazendas da região, era comum distribuir este tipo de alimento, principalmente na quaresma, aos colonos. Carne de boi era iguaria rara. Óleo de milho, algodão ou soja, coisa para poucos, quando havia.
Neste tempo, era comum guardar o bacalhau ganho atrás da porta, para que não pegasse umidade e nem mofasse. Na Páscoa, dessalgavam o peixe e cozinhavam com o que houvesse à mão. Batatas eram a opção mais viável, sempre com muito azeite importado, geralmente português. Como a mão-de-obra era formada principalmente pela colônia italiana, regava-se tudo isso com um bom tinto. De comer rezando!
Outro fato que me lembrei é de que, durante a quaresma, não se podia bater nas crianças. Pecado! As pestinhas sabiam disso e abusavam. Não todos, mas a maior parte. A qualidade e a quantidade de estripulias ultrapassavam em muito a capacidade de memória dos pais. Solução: no Sábado de Aleluia, as crianças acordavam e já faziam fila para apanhar. Culpados e inocentes caíam no chinelo. Fora isso, era um tempo delicioso.