Júlio Chiavenato
Quinta-Feira, 20 de Março 2008 - 23h38 Dicionários falam muito e dizem pouco. O Aurélio diz que paixão é o “sentimento ou emoção levados a um alto grau de intensidade, sobrepondo-se à lucidez e à razão”. Depois, acrescenta amor ardente ou sensual, obsessão, vício dominador, desgosto, mágoa, sofrimento, cólera etc., até chegar ao “martírio de Cristo e dos santos”.
O Houaiss começa com “o sofrimento de Jesus”, para repetir os mesmos significados. Só acresce que paixão pode ser um “furor incontrolável”. Lembra Kant, que segundo o gourmet Antônio Houaiss (ele gostava de comer cérebro de macaco, como confessou em um artigo) paixão é a “inclinação emocional violenta, capaz de dominar completamente a conduta humana e afastá-la da desejável capacidade de autonomia e escolha racional”. Ainda cita Nietzsche e Aristóteles. O doutor Houaiss e o mestre Aurélio aprenderam com os velhos dicionários.
Antes dos dois, Laudelino Freire e Caldas Aulete escreveram a mesma coisa e parece que copiaram o velho Moraes, cujo Diccionario da Lingua Portugueza, publicado em 1813, foi dedicado ao guloso João VI, por “licença da Meza do Desembargo do Paço”. Justamente, é a partir do século 17 que a paixão deixa de ser “grega” e passa a ser “latina”. Foram os moralistas, principalmente do século 18, que entenderam o conceito de paixão como a tendência das emoções dominarem a personalidade.
Por exemplo, o chato La Rochefoulcauld decretou: “Se resistimos às nossas paixões, é mais por causa da fraqueza delas do que por causa de nossa força”. Pô!, moralista do cão, me desmoralizou. Quer dizer que ainda não me compraram por que não ofereceram o meu preço? Mas eu peço tão pouco!
É por isso que Pope resmungava: “Se a razão é uma bússola, as paixões são os ventos.”