Jornal A CIDADE

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Júlio Chiavenato

Sabado, 22 de Março 2008 - 18h34

E mal pagos


No século 20 começa o fim da beleza. O senso estético desmorona, impõe-se o reinado do feio, em nome do funcional. Do gótico ao clássico, do Renascimento ao romantismo, tudo é negado no pragmatismo de uma nova arte, ao alcance de qualquer um. Não mais o dom, o gênio, mas o esforço, a “pesquisa”, ditarão os rumos da arte, servida ao sabor do mercado.
As formas se entortam ou assumem uma simetria angulosa, de retas duras. As palavras elegem a “clareza” e a “compreensão”, em lugar do poético, da sonoridade. O mundo industrial ruge, os fascismos contribuem com marinettis e os socialismos com picassos. Na música a estridência ocupa um lugar nunca pensado.
O que aconteceu? Não a decadência das artes como tal, mas em seu lugar a entronização do vulgar para o consumidor de uma nova economia, sem tempo de decantar a riqueza e transformá-la em senso estético. A ridicularia dos novos ricos toma o poder cultural. Se alguns marinettis e picassos superam a mediocridade, a média é destruidora.
Quem mais sofre é a arquitetura. Nunca teve tantas técnicas à disposição. Nunca abusou tanto delas, porém o resultado é o mais desolador. Nenhum palácio que ficará mil anos na memória estética da humanidade. Mas enormes caixas de aço, vidro e cimento, com espetaculares vãos livres, façanhas mais de engenharia que de arquitetura, em quadrados e retângulos arranhando o céu, gritando seu peso em dinheiro, poder, desumanização.
A feiúra encontra seu ponto alto com a globalização da pobreza. A ascensão dos pobres e a tolerância aos miseráveis, para melhor controlá-los, consagra o vulgar num anti-esteticismo agressivo, que afoga o sentimento da beleza. Conclusão, como um merdinha dos novos tempos diria: estamos fritos.

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