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Classe A

Sabado, 22 de Março 2008 - 20h19

As muitas histórias de Eduardo Junqueira

MATHEUS URENHA As muitas histórias de Eduardo Junqueira "Pra falar a verdade, estou desempregado, sem fazer nada.

Ele é e sempre será um autodidata.
Para compensar a curta carreira acadêmica, o atento e assíduo leitor de Eça de Queiroz e Machado de Assis nunca parou de estudar. Pesquisador e empresário do setor de açúcar e álcool, que agora se diz “desempregado”, o paulistano criado até os sete anos em uma fazenda de Morro Agudo, tem- e terá sempre- toda a História para contar


ENTREVISTA A JOÃO GARCIA, VICENTE GOLFETO E EUCLIDES OLIVEIRA


João Garcia – Com que idade o senhor está? Nasceu onde?
Eduardo Diniz Junqueira – Já fiz 82 anos. Nasci na cidade de São Paulo, na rua Itambé, na frente da Escola Americana, em Higienópolis, na casa de minha avó. Só nasci. Fui criado até os sete anos numa fazenda de Morro Agudo. Meu pai morreu muito moço e, depois, passamos a viver em São Paulo, onde estudei, até os 18 anos. Vim para a fazenda com essa idade, era um ‘analfabetão’ (risos).

João – Mas precisou vir por que?
Junqueira – Porque minha mãe não queria me entregar para um outro genro tomar conta. Ela, lá em São Paulo, ficava sempre muito preocupada.

João – Era só fazenda? Ou já tinha a usina?
Junqueira - Não, não tinha usina. Era fazenda da sistema, naquele ‘sistemão’, do tempo da guerra, não tinha trator, não tinha nada isso. Tinha bastante carroça de burro. Nós passamos, até 1950 e de 1950 para a frente, por uma transformação enorme. Nessa época, trator já era uma realidade, mas caminhões haviam poucos. O transporte era feito com carroça de burro. Em 1945, nós puxávamos da fazenda 22 mil toneladas de algodão na carroça, levamos 4 mil sacas de café para Morro Agudo, para implantar a Estrada de Ferro, e 2 mil sacas de arroz para Orlândia, tudo na carroça. Não tinha caminhão.

Vicente Golfeto – Me diga uma coisa. O senhor estudou o quê?
Junqueira - Só o ginásio.

Golfeto – E da onde veio a paixão pela História, principalmente pela micro-história?
Junqueira – A família da minha mãe não era muito intelectualizada, mas meu tio, Antonio, freqüentava a Universidade de São Paulo (USP). Então, havia aquela preocupação constante com o meu analfabetismo. Então, ficava me mandando livros, indicando o que eu poderia ler. E eu lia sozinho, na fazenda. Minha mulher também gostava muito de ler. Então, passávamos esse tempo na fazenda cultivando esse hábito.

Golfeto – Mas e a História?
Junqueira – A História por ser mais fácil de adquirir alguma cultura ou fingir que é culto (risos). Não há muita explicação. Basta o entendimento. Pra falar a verdade, eu li Welser e a História Universal inteirinha, porque temos de ter um conhecimento global para sabermos das minúcias, senão ficamos alijados. Minha família sempre teve uma atração em falar do passado, principalmente meus tios de Orlândia, os primeiros que chegaram, em 1812.

Golfeto – A diferença entre os Junqueira é que os de Orlândia ficaram ricos e outros Junqueira ficaram pobres..
Junqueira – Isso porque os Junqueira daqui eram mais granfinos, gastavam demais. Enquanto que lá eram mais ‘caboclão’. Foi por isso mesmo que ficaram bem de vida. Quando chegou na Crise de 29 (a quebra da bolsa norte-americana), como não gastavam muito, não tiveram grandes dívidas e conseguiram passar.

João – No começo, na nossa região, o predomínio era do café?
Junqueira – Nossa região começou com a pecuária e com a roça de subsistência. Nós não temos mais hoje terras chamadas de cultura, que era o mato.

João – Em toda a região de Ribeirão?
Junqueira – Se você analisar o espigão principal de Ribeirão, tudo era mata. Toda a margem que vai pro Mogi é um campo, e muito ruim. Isso modificou. Era 20 a 30%. A mata circundava por Batatais, fazia a volta e ia à Franca. A nossa região, de Morro Agudo, havia uma roça ou outra, quando surge a roça de abade, que foi se tornando a roça vermelha, de terra vermelha, de terra roxa, pobre de terra. Era uma continuação de Minas Gerais. No rio Pardo, é que se separa um outro tipo de solo, de floresta, que se iniciava de Barretos pra lá. Pra cá não. Tanto que os mineiros queriam a divisa no rio Pardo. Franca foi criada, logo depois de elevada à Vila exatamente para garantir o avanço de mineiros sobre a Província de São Paulo, que era muito pobre.

João – E a cana, chegou quando?
Junqueira - A cana chega, na nossa região por volta de 1910. Havia cinco ou seis engenhos no município de Ribeirão Preto. Aí são construídos dois engenhos centrais, uma novidade naquele tempo, um em Pontal pelo Schimidt, e outro em Igarapava, pelo coronel Quito Junqueira. Aí, a cana começa a se expandir, ainda que vagarosamente, na margem esquerda do rio Pardo.

João – Para fazer açúcar e pinga?
Junqueira - Não. O engenho já era de açúcar. Pinga e rapadura sempre existiram. O começo da cana aqui foi limitado pelo IAA (Instituto do Açúcar e do Álcool, substituído em 1971 pelo Programa Nacional de Melhoramento da Cana-de-Açúcar), que não admitia que se fizesse usinas novas. Como não tínhamos ligações entre o Norte e o Sul, pois dependíamos só de navios, já que eram dois ‘brasis’ complemente separados, é que se permitiu o crescimento das usinas, já como destilarias de álcool. Se bem que o álcool já existiu antes de 1930, o álcool-motor (combustível) era vendido aqui, mas não agüentou a concorrência com a gasolina e desapareceu. Meu pai tinha um automóvel movido a álcool, em 1932/33, antes de falecer.

João – Me diga uma coisa: o Proálcool nasceu verdadeiramente na região de Ribeirão Preto?
Junqueira - Não. O Próalcool surgiu da crise do petróleo, quando o preço do barril no mercado internacional subiu muito, de 2 dólares para 10 dólares.

Golfeto – Foi nos anos 70, no governo [Ernesto] Geisel [1974 -1979].
Junqueira - Isso. Apareceu essa possibilidade do álcool, mas o preço do petróleo caiu novamente e parou (o Proálcool). Se falou que os produtores de álcool abandonaram os consumidores. Não é bem verdade. Quem abandonou foi preço. Quando a gasolina cai a um preço próximo do álcool, ele não concorre com a gasolina. Hoje em dia está concorrendo.

João – Mas teve a participação de ribeirão-pretanos no Próalcool?
Junqueira – Teve, teve muita gente. O ciclo inicial do álcool foi por aqui, pode se dizer isso sim.

Euclides – A família do senhor também teve participação no Próalcool?
Junqueira – Lá na Vale do Rosário, naquele tempo, tivemos uma participação grande. O Pedro, que era nosso diretor, foi secretário de Agricultura do governador (Paulo Egydio Martins, eleito indiretamente para comandar São Paulo em 1975 durante o governo Geisel pelo então Colégio Eleitoral). Além de outras usinas aqui em volta de Ribeirão, o que ‘esparramou’ uma possibilidade grande para o Próalcool. Mas, quando a gasolina barateou, o álcool foi desaparecendo e só alguns teimosos continuaram.

João – Existe gente que costuma dizer que a cana estraga a terra...
Junqueira – Isso é uma bobagem enorme. Basta dizer que as terras que tinham baixa produtividade hoje produzem cana em quantidade que melhora dia por dia.
João – A cana melhora a terra? Como?
Junqueira – O maior inimigo da terra é a erosão. Com a cana, não tem erosão. E toda a palha que cai fica no chão. Hoje, em dia, com a vinhaça que é uma riqueza enorme, você vê que os canaviais estão cada vez mais bonitos, mais frondosos.

João – Essas grandes extensões de cana, no que diz respeito à vida dos animais, podem provocar um desequilíbrio ecológico? Como conciliar essa questão?
Junqueira - Bom, o homem cria o seu hábitat. E quando ele cria, ele modifica os outros hábitats, que passam a ter dificuldade de vida para produzir comida, para todos nós. Com a cana, há um silêncio muito grande com os fenômenos que estão ocorrendo hoje, com os matos e capões de mato, as restingas beirando os ribeirões. Quando o corte de cana pára, aumenta a quantidade de animais, coisa que você não via antigamente. O seu jornal mesmo publicou, outro dia, sobre a onça-parda que foi atropelada, além de outros bichos que não apareciam, como as antas.

Golfeto – Antas? Aonde?
Junqueira – Lá, nossa região (de Morro Agudo), na Fazenda São Luiz.

João – Ah....
Junqueira – Sim, lá as antas nunca desapareceram, porque havia uma mata que meu tio Marico fazia questão de preservar. Ele tinha esse cuidado. Estavam aparecendo no canavial e também em outros lugares. Tamanduá também tem aumentado muito. Quando há um capão de mato ou restinga longes, o animal pode transitar, porque não há ninguém. O que está surgindo, mas que ninguém fala nada, é a lebre da Patagônia. Vem vindo do Uruguai, do Paraguai, do Sul do Brasil e já apareceu aqui. Mas ainda não pegamos porque no meio da cana é mais difícil de pegar. O maior inimigo do bicho é o inseticida.

João – Na cana não se usa inseticida?
Junqueira – Não. Se usa herbicida, que não mata. O maior inimigo que existe é o algodão, que você passa uma série de produtos, o bicho come e morre.

João – Outro problema da cana é o fogo, as queimadas...
Junqueira – Antigamente, em 1965/66, não se queimava cana. As variedades eram espalhadas mais facilmente, se cortava crua. Depois é que surgiu essa possibilidade de queimar. E a queimada facilita muito o corte da cana. E as variedades de cana já não se espalham tão facilmente. Elas são muito ‘palhudas’, fica difícil espalhar no facão. A mecanização avança violentamente. Aqui, em Ribeirão Preto, cerca de 80 a 90% da produção já é mecanizada. Na nossa região, cerca de 60 a 70%. E no Estado de São Paulo, a média é de 50% de mecanização. Antes, havia dificuldade porque não existiam máquinas para comprar. Há três anos, fabricavam-se 100 máquinas por ano, no mundo. Hoje, só aqui em Ribeirão, se faz mais de 100 máquinas a cada ano.

João - Como é que o senhor analisa a imagem do usineiro na região de Ribeirão?
Junqueira – Em um censo que foi feito, nas classes mais baixas, o conceito (do usineiro) é muito maior do que na (classe) média. A cidade (os moradores das áreas urbanas dos grandes centros) têm uma visão errada do usineiro, enquanto o povo não. Todas as usinas da nossa região têm uma consciência social muito grande no tratamento de seus funcionários, que são registrados. Estão fazendo uma campanha para “libertar” os cortadores de cana, como se eles fossem escravos. Isso não existe. Esse negócio de trabalho escravo é uma versão errônea. Existe também o trabalhador sem registro. Mas o trabalhador sem registro, que mora na cidade, não é tratado como escravo. O sem registro, no campo, é escravo? Existe, então, um tratamento diferente, uma campanha muito grande contra o trabalho agrícola. Há uma pregação para que se divida (as áreas do país) em pequenos ‘sitiozinhos’, pouco produtivos, em que a pessoa venda o excedente. Theodor Herzl (jornalista húngaro que publicou em 1896 o livro “O Estado Judeu”) disse que o futuro da agricultura estava na mecanização. Naquele tempo, a mecanização era com tração animal. A grande plantação iria vencer a pequena, como a América tinha vencido a Europa, pois nascia uma nova classe, que era o proletariado, que tinha que comer barato. E não tem jeito de se comer barato, se não for mecanizando. Então, muita gente se opõe a isso. Uma vez, numa fazenda, um empreiteiro me falou que “o tempo daqueles fiscais de bota acabou”. É verdade. Esses tempos acabaram mesmo. A cana, às vezes, choca porque leva uma mentalidade industrial para o campo, ao modificar aquele aspecto bucólico, meio campesino. É evidente. O campo em si, não só no Brasil, está se despovoando. Fiz uma viagem ao Sul da França e fiquei admirado com a quantidade de automóveis passando. Conversando com um francês, ele me disse que “depois das seis horas da tarde, você pode andar nu nas fazendas por aí, porque só têm cachorro e alarme”. Na Itália, andei na Toscana e uma pessoa me disse que as pessoas com mais de 30 anos trabalhavam no campo.

Golfeto – Se fosse para dar uma nota, de zero a dez, o senhor esperava quanto do governo do presidente Lula?
Junqueira - O governo, em si, eu esperava zero.

Golfeto – Eu esperava 2.
Junqueira – Hoje eu acho que está valendo “uns” 7. Desde o governo do Itamar, do Fernando Henrique, a economia e a política exterior do Brasil é a mesma, vem continuando. Não é desse nem daquele.

João - Se vocês deram nota 7 para o governo Lula, quanto a esquerda deveria dar?
Junqueira - A esquerda é capaz de dar zero, três...Gente, o Lula não governa. Ele anda de lá para cá. Tem alguém governando por ele, quem eu não sei.

João – E a Dilma (Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil)?
Junqueira - Bom, eu não a conheço pessoalmente. Mas pessoas do meu relacionamento que tiveram contato com ela, disseram que ela é muito inteligente. Mas que, inicialmente, foi muito radical, muito contra tudo. À medida que ela foi tomando conta do cargo da eletricidade [Dilma ocupou a pasta das Minas e Energia, no início do governo Lula], quando recebeu explicações que a cana poderia ser usada para esse fim, ela rapidamente apreendeu aquilo. É uma ‘moça’ inteligente.

Euclides Oliveira – Dilma reúne condições para ser presidente da República, como Lula têm sugestionado aos seus interlocutores mais próximos?
Junqueira - Quem não reúne condições para ser presidente da República, se o Lula foi?

Golfeto – São Paulo possui sua expressão demográfica e econômica. Como o Estado pode conseguir uma maior expressão política?
João – O atual presidente, o Chinaglia, é de Serra Azul.

Junqueira – Sim, mas é preciso lembrar o seguinte: faz 100 anos que um paulista não é presidente da República.
Golfeto – O Fernando Henrique é um “paulista do Rio de Janeiro”. Washington Luís era de Macaé.
Junqueira - Sim, paulista de Macaé. O Jânio (Quadros) era de Mato Grosso, nascido lá “no estrangeiro”. E o Lula nasceu em Pernambuco.

João – Essa crise dos Estados Unidos poderá afetar o Brasil?
Junqueira - Sim. Nós estamos num mundo cada vez mais globalizado. Em 1929, quando o mundo ainda não era tão globalizado, a quebra da Bolsa de Nova York chocou o mundo o inteiro.

João – Essa crise americana poderá ter a mesma dimensão?
Junqueira – Não sei. Hoje, o mecanismo financeiro e a capacidade de resistir não está só com os Estados Unidos, mas também com a China, com o Japão. Nós precisamos lembrar que os Estados Unidos, quando acabou a guerra [a Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945] tinha 53¨% da riqueza do mundo. Hoje, tem apenas 25% mas a economia ainda é seis vezes maior que a da China. Então, é possível que esse choque se dilua, em termos de importância, se comparado a 1929.

João – Fazendo um exercício de futurologia, o que dá para imaginar do Brasil daqui a 100 anos?
Junqueira – O avanço é tão rápido que a imaginação, por mais atrevida que seja, não consegue imaginar o que vai acontecer.

João – O que o senhor se lembra da Revolução de 64?
Junqueira - No dia 31 de março daquele ano, 1964, eu recebi uma ligação do ex-deputado Sérgio Cardoso de Almeida, dizendo que o pessoal de Ribeirão tinha ido para São Paulo, um tenente-coronel chamado Pereira, que tinha vindo para cá. Como o delegado Soares tinha ido para SP, me pediram para ajudar a tomar conta da cidade, afirmando que aqui existia um movimento esquerdista mas eu não estava ao par de nada. Aí me ligou o Severo Gomes (ex-senador, morto em 1992 na queda de um helicóptero em que também viajava o então deputado Ulisses Guimarães), que era muito meu amigo, me pedindo para fazer alguma coisa, pois poderia acontecer algo em Ribeirão. Aí eu falei com o Valdo Silveira, que não era muito meu amigo, mas era vereador aqui na cidade, advogado, político, inteligente. Eu não era “ademarista” e nunca fui. Pensei um pouco e resolvi procurar o Coronel Condeixa, que era um homem de prestígio aqui na cidade. Fomos à sua casa, muito modesta, expliquei os fatos, que havia um movimento de sindicatos e na Escola de Medicina, muito marcante. Ele entrou de novo na casa, demorou um pouco. Conversamos e fomos à delegacia, onde já estava o tenente-coronel que comandava a Polícia Militar, a Guarda Civil, naquele tempo. O Coronel disse que era preciso que eles tomassem alguma providência, pois estavam preocupado que houvesse alguma resistência por aqui. E o tenente-coronel respondeu que a primeira providência a ser tomada era controlar os jornais. Um jornalista sem jornal não é nada. Falamos para pôr um soldado na porta de cada jornal, o sujeito não poderia entrar, e estaria tudo acabado. Outra medida era fechar o sindicato. Depois, eu saí com o Valdo, vi um amigo meu bravo na porta. Fomos no escritório dele, que escreveu um manifesto para todos, para apoiar a ação da Polícia, tendo recebido o apoiado de diversas pessoas. O primeiro que assinou foi um alemão do Sindicato dos Gráficos. Se houve exorbitâncias depois, eu não tomei conhecimento, pois não era o meu papel. Acabou aquilo ali e eu voltei para a minha casa. Algum tempo depois, houve um movimento para tirar o Gasparini (o atual prefeito de Ribeirão, que havia assumido o cargo pela primeira vez em 1963), que ainda era mocinho e estava completamente cru. Conversando com o Luís Antonio Pinto e com o Maurílio Biagi, falamos que não poderíamos deixar o Gasparini sair [do cargo]. Ele não havia feito nada. Por que tínhamos que pôr o Gasparini para fora? Era o pessoal do Ademar que queria tomar a Prefeitura. O Maurílio me perguntou o que íamos fazer. E eu respondi: “Nós vamos fazer o seguinte: quem tem força aqui em Ribeirão são os usineiros”. Naquele tempo era assim, hoje não é mais. Ele, então, telefonou para os primos dele, que eram os Marchesi, fomos até eles, que não disseram uma palavra. No dia seguinte, ninguém mais falou em tirar o Gasparini. Foi aí que eu fiquei conhecendo ele, que fiquei amigo do Gasparini, quando fui diretor da Santelisa. Ele sempre foi um homem sério, preocupado com os problemas sociais e de quem sempre tive a melhor impressão. Quando se deparava com algum usineiro meio “brabão” ele fazia isso com uma habilidade extraordinária.

Euclides - O prefeito Gasparini, que hoje tem 71 anos e está em seu quarto mandato, evoluiu à altura do progresso de Ribeirão Preto?
Junqueira – É um prefeito normal, como outros. Todos os que estiveram aí não foram melhor do que ele. Dessa vez que ele assumiu, ele pegou uma espiga, porque o negócio estava bem estragado. Falei com ele mais de uma vez, mas nunca fui à prefeitura. Sou amigo dele, mas não vou lá [no Palácio Rio Branco]. Ele não é um homem de dar murros. Não é o gênio dele. Mas você vê que a economia [as finanças] da prefeitura estão se acomodando, a cidade está melhorando. Agora, têm problemas maiores e um dos mais importantes é o da enxurrada, que está acumulado ao longo dos anos e é uma das coisas mais difíceis de serem resolvidas num país como o nosso. Como só há telhado e asfalto, a água chega toda de uma só vez, na parte baixa da cidade. Com o tempo, vamos ter que fazer cisternas para coletar essa água que cai do telhado e vai penetrando na terra, enquanto o excedente corre na rua mais lentamente, para segurar um pouco. Outra possibilidade é mudar o cimento das calçadas por um do tipo vazado [poroso] para a água poder penetrar. O caminho é esse. Tem que haver um jeito. O prefeito não é o único culpado.

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