Júlio Chiavenato
Segunda-Feira, 24 de Março 2008 - 23h20 Em 500 anos o Brasil assimilou a idéia de que a destruição das matas é sinal de progresso. Quem alertou sobre o perigo da agressão à natureza foi calado, mesmo quando era poderoso. Por exemplo, José Bonifácio há quase 200 anos previu os danos da derrubada das florestas nordestinas para o plantio de cana e avisou que a devastação provocaria secas constantes. Ele antecipou a “seca do 70”, que é o marco, em l870, do fim do equilíbrio ecológico no Nordeste.
Mas o açúcar enriqueceu algumas famílias, que mandam (e matam) até hoje e elegem nossos ilustres senadores e deputados, alguns deles suspeitos de preservarem a tradição familiar do trabalho escravo. Como José Bonifácio atrapalhava o progresso que produzia fortunas exportando açúcar, foi expulso do Brasil em certo momento.
No governo JK, campeão da entrega nacional ao capital estrangeiro, líder mundial na destruição das ferrovias, um dos sinais de progresso dos “50 anos em 5” eram os jornais cinematográficos mostrando enormes tratores derrubando matas inteiras, para abrir estradas no nada ou construir mausoléus como Brasília.
Na ditadura militar os tratores “arrastando” árvores centenárias encheram de patriotismo a televisão. Toda semana, especialmente no governo Médici, um exército de vândalos comandava máquinas abrindo pastos na Amazônia. O progresso foi gritado em todas as formas publicitárias.
Depois de 500 anos dessa visão torta, sufocando no nascedouro os avisos racionais, como os de José Bonifácio, chegamos ao limite. Na Folha de S.Paulo de sábado, Paulo Vanzolini, o cientista e genial compositor de Ronda, afirmou que não tem jeito: a falta de consciência social e a cobiça dos “progressistas” acabarão com a Amazônia. Não há salvação.