Caderno C
Terça-Feira, 25 de Março 2008 - 22h48
SÉRGIO DE SOUZA AO LADO DA MULHER LANA NOWIKOW Fotografia de 1977, tirada em Ribeirão Preto quando o jornalista tinha 42 anos e editava o jornal de Samuel Wainer
O jornalista Sérgio de Souza, de 73 anos, editor e um dos fundadores da revista “Caros Amigos”, morreu ontem por volta das 5h40 no Hospital Oswaldo Cruz, na zona sul da Capital. Sérgio de Souza morreu após complicações pulmonares. Ele havia sido operado no dia 10 de março, em razão de uma perfuração no duodeno. O corpo do jornalista foi velado e cremado na Vila Alpina, na capital.
Sérgio de Souza deixa viúva a jornalista Lana Nowikow, com quem teve três de seus sete filhos. Nascido em 1934 no Bom Retiro, bairro tradicional no Centro da capital paulista, Serjão - como era chamado pelos colegas -, era autodidata e não fez curso superior. Nem precisava.
Bancário, viu uma notícia na Folha de S. Paulo no fim da década de 1950, que dizia “você quer ser jornalista?”. Ele fez um teste e, aprovado, entrou para a reportagem do jornal. Quatro anos depois, transferiu-se para a revista Quatro Rodas, da Editora Abril. Lá, em 1966, fez parte da equipe que fundou e lançou a Realidade, a mais importante revista de reportagens já editada no país.
Ele inventou o “editor”
Com ele, nessa aventura, estava o repórter José Hamilton Ribeiro, amigo de mais de 50 anos. Enviado especial ao Vietnã, Zé Hamilton perdeu a perna na explosão de uma mina e alcançou notoriedade nacional. Sérgio de Souza foi o editor que trabalhou todo o material desse correspondente tão especial. Zé Hamilton conta:
- Foi ele que criou a figura do editor no Brasil. Antes do Sérgio, só existia a figura do copy-desk. Era a tirania do copy-desk. E o Sérgio era o cara que mexia no texto sem desfigurá-lo, sem mudar o estilo do repórter. Numa revista como a Realidade, o resultado era fantástico. Nunca se submeteu às grandes empresas e era uma figura quase franciscana. Trabalhei com ele durante um ano e meio em Ribeirão Preto numa época em que havia muita censura da grande imprensa.
Para chegar a Ribeirão, no ano de 1974, foi criada uma estratégia especial pelo amigo comum, o empresário João Dib, então gerente comercial de O Diário. Dib fez um plano especial de venda de assinaturas para bancar a vinda dos dois pesos-pesados do jornalismo paulistano. E deu certo.
- O Sérgio era um homem íntegro e inteligentíssimo. O Sérgio mudou a cara do “Diário”, que se tornou uma referência no interior do Estado, conta.
Ousado e generoso
Dentro do jornal, toda uma geração de jornalistas locais desabrochou, sob as asas generosas do editor. Um deles era Sidnei Quartier, hoje repórter especial de A Cidade.
- O Diário publicava a edição Extra, às segundas. Íamos de carro, repórter e fotógrafo. Num domingo, havia jogo na distante Sorocaba, entre Comercial e São Bento. E o carro não estava em condições de viajar. Como publicar as fotos na edição Extra? Sérgio não teve dúvidas. Mandou fretar um avião monomotor. O jornal circulou com belas fotos e, como sempre, esgotou-se nas bancas.
Jarbas Cunha, hoje assessor de comunicação da Prefeitura, estava na equipe.
- O Sérgio dominava o idioma como poucos. Era um mestre da edição. Transformava pedra bruta em pérola.
O pai do “Domingão”
Em Ribeirão Preto, Sérgio editou ainda um jornal alternativo que se tornou um cult- e é estudado, hoje, nos cursos de comunicação. Era “O Domingão”, em parceria com Benito Valenzi, que seria assassinado por um trombadinha, no metrô de São Paulo. “O Domingão” marcou época no Interior. Como marcaram época também os alternativos que ele fez em São Paulo, todos marcos do bom jornalismo: o “Bondinho”, o Ex-jornal de contracultura; o tablóide “Aqui São Paulo”, em parceria com o lendário Samuel Wainer.
Sérgio de Souza não era um. Era múltiplo. Há onze anos, em abril de 1997, lançou, com parceiros e associados, a revista Caros Amigos, que dirigia até duas semanas atrás. Como comenta José Hamilton Ribeiro:
- Sérgio que deixou um legado tanto no aspecto do conteúdo, porque era um jornalista de resistência do poder dominante, fosse econômico, político ou cultural, tanto no aspecto da forma.
Livros e opiniões
Ele nunca fazia concessões. Dizia que não havia jornalismo imparcial. E que era preciso estar do lado certo.
Diz o deputado Chico Alencar:
- Ele era um jornalista. Alguém que, na estrada pedregosa, não perdeu o dom da infância que fecunda a inteligência humana: a curiosidade. Um repórter que fazia aquele essencial tão esquecido nesses tempos de manipulação midiática: reportava-se à realidade, buscando tirar seus véus.
Sérgio de Souza também é co-autor dos livros Minha Razão de Viver, de Samuel Wainer, O Crime da Novela das 8 e Guia de Cuba. Em todos eles pode-se ver a maestria da edição de texto, que tanto contribuiu para a excelência do jornalismo brasileiro. Seu último trabalho ainda não foi publicado: ele havia concluído há duas semanas a edição do texto do livro “As anedotas picantes do Dr. Gabriel”, do jornalista e diretor editorial de A Cidade, João Garcia. O livro deve ser publicado ainda neste semestre.
Opinião
“Ele esporeou a sonolência provinciana”
Sem essa do “descanse em paz”. Ele era calmo e tranqüilo. Mas por dentro um vulcão. Porém sempre sereno. Gente como ele finge que morre, mas deixa suas extensões. Que se libertam e assumem vôos próprios, imaginários ou reais. Sérgio de Souza, mais que o jornalista, foi o provedor de asas, o cara que veio e disse: vai em frente. Abriu caminhos e ensinou os atalhos para vencer as veredas.
Isso todo mundo sabe. Não é preciso dizer que ao chegar em Ribeirão Preto, num vacilo de paulistano, montou um pangaré para descer nas portas de O Diário, então dirigido pelo Marcelino Romano Machado. Montou um pangaré mas esporeou a sonolência provinciana. Depois a corrida na raia foi cheia de sobressaltos. O saldo porém, é mais que vitorioso e está hoje rendendo frutos pelo Brasil afora.
“Crias” do Sérgio de Souza se tornaram feras do jornalismo brasileiro. Em Ribeirão Preto, de alguma forma, A Cidade atual é “produto” do que o Sérgio de Souza ensinou. Estão aí a Rosana Zaidan e o Sombrero – era assim que ele chamava o João Garcia – que não me deixam mentir. Além do Sidnei Quartier, que chegou garotão de Rio Preto e se “formou” na escola do Sérgio, que não dava diploma a ninguém, mas revelava o talento de cada um.
Morreu, mas fica na lembrança. Caladão, mas vai brincar com bicho. Quando ele chegou, com o Zé Hamilton, eu era editor ou coisa que o valha de O Diário (pois naquele tempo tudo era mais ou menos difuso). Como eu era briguento os “inimigos” vibraram com a minha “queda”. Um deles pediu audiência ao Sérgio para informar-lhe que eu era agente da CIA. Foi posto para fora da redação, solene e serenamente.
O Sérgio de Souza nunca me contou isso, só soube muito tempo depois. Defendia com unhas e dentes seus repórteres, até aqueles que foram desleais algumas vezes. Fingia não ver as pequenas traições e mesquinharias. Morreu, mas fica. O que morre com ele é um tipo de jornalismo quase extinto. Quase, porque ainda sobraram alguns caros amigos.
JÚLIO CHIAVENATO
DA REPORTAGEM