Jornal A CIDADE

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Júlio Chiavenato

Quinta-Feira, 27 de Março 2008 - 0h57

Se lhe parece


Quando não se acompanha o caminho da grana, traçado lá embaixo, onde não se vê e antigamente se chamava infra-estrutura, é difícil entender o que se passa em cima, que parece ser o “mundo real”. Este “mundo real” é um reflexo que inverte os valores para acomodar as contradições sociais.
Segunda-feira o caderno Dinheiro, da Folha de S.Paulo, mostrou o caminho do novo consumo brasileiro. As classes C, D e E compram 50% do que está no mercado. Estas três “classes” até 2007 acumularam R$ 38,7 bilhões. Apropriadamente o repórter fala em “expansão de renda” e não em distribuição de renda. Melhor seria trocar “renda” por palavra mais adequada.
Como as “classes baixas” agora têm mais dinheiro, a indústria produz o que elas podem pagar. Mas esse dinheiro não é tanto que dê para comprar qualidade. Nem é conseqüência de uma “promoção social”, advinda de melhor qualidade de vida. Os pobres “melhoraram de vida” sem conquistar um centímetro em educação, saúde e seguridade social, itens fundamentais que pioraram muito. A dengue, a tuberculose, o crescente analfabetismo funcional, entre outras mazelas, provam a incapacidade de garantir um mínimo de sobrevivência digna ao ser humano.
Para compensar, aumenta-se a “renda” e eles compram os automóveis velhos que as classes A e B descartam, trocam as televisões e se empanturram de embutidos. Depois engrossam as filas dos hospitais onde morrem pelos corredores. E assistem os filhos se perderem no consumo e tráfico de drogas.
Esperto, o “sistema” rebaixa a qualidade do que produz para atender a esse “crescente mercado”. As classes A e B se defendem criando guetos de luxo. Eufóricos, os jornais se enchem de anúncios e anunciam a morte da luta de classes.

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