Hamilton de Andrade Lemos
Quinta-Feira, 27 de Março 2008 - 0h58 Ser moderno não é necessariamente um atributo positivo. O mal também evolui. Uma característica desta evolução é o aumento de sua eficácia, da ampliação de seu poder e da sofisticação de seus métodos.
Todo o trabalho de Herodes colheria hoje melhores resultados. Há recursos de sobra. Como a dengue, no Rio de Janeiro. Crianças caindo como moscas. Mosquitos matando em nome do descaso de quem foi eleito para proteger, planejar e agir pela saúde das pessoas. E com a cumplicidade da ignorância deste mesmo povo, que cria, nos próprios quintais, o algoz de seus filhos. Aqui, o mal age melhor não agindo. Opera seus prodígios apenas com a inércia. Basta deixar como está para que tudo piore.
A esta distância, notícias de que cinqüenta, mais ou menos, morreram da doença, em sua maioria crianças, tem a frieza das estatísticas. Contra isso, tivemos na última terça-feira, no Jornal Nacional, a contrapartida que nos dá sua dimensão: durante o programa, foram exibidos os nomes de cada uma das crianças e mostradas suas histórias. Uma forma de tornar única cada uma das vítimas.
É bom, mas pouco contra a insídia do mal, que contará com a efemeridade da notícia, tanto quanto de nossa atenção. Assim que a crise passar, logo que as chuvas se forem, as crianças levadas serão esquecidas por todos nós que não somos suas famílias. Outros males cobrirão seus antecessores. Outras manchetes serão assunto, enquanto esperamos mais um capítulo da novela.
O mal moderno tem disso: perpetua-se na variedade. Hoje a dengue, ontem um ônibus sem manutenção e, em silêncio, amebíases e desidratação. Hoje, Herodes não precisaria de soldados. E, bem provável, Jesus não escaparia.