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Sabado, 29 de Março 2008 - 15h24

História preservada

Adriana Matiuzo
DIVULGAÇÃO História preservada TRADIÇÃO O Café Tortoni completa 150 anos em 2008 e atrai turistas que formam filas para assistir shows de tango

Nem o som sentimental do tango pelas esquinas ou a noite que parece não ter fim são tão surpreendentes para o turista brasileiro em Buenos Aires quanto a riqueza histórica de seus prédios. Por todo lado, a capital argentina ostenta construções monumentais, com arquitetura clássica européia, em grande parte, em estado de preservação impecável.
Não é preciso andar muito pela cidade de 12 milhões de habitantes para perceber que, ao contrário do que aconteceu em Ribeirão Preto, São Paulo, Rio de Janeiro e tantas outras cidades brasileiras, Buenos Aires não quis se desfazer de sua história. Basicamente, pode-se dizer que a substituição de seus prédios clássicos por novas construções não foi uma regra. A maioria data do século 19 e tem traços arquitetônicos europeus, já que a cidade foi colonizada por levas de imigrantes italianos e espanhóis.
Na região central da cidade, por exemplo, praticamente não há prédios históricos isolados. Eles estão lado a lado pelas ruas. O que impressiona o turista mais desavisado e emociona quem aprecia arquitetura e, especialmente, a rica história da América Latina.

Prédios históricos
Em frente à Plaza de Mayo, por exemplo, é possível ver em seqüência o Palácio do Congresso Nacional, a belíssima Catedral Metropolitana de Buenos Aires, o Banco de Lá Nacion Argentina e a Casa Rosada, sede do governo do país. Sem dúvida, a Casa Rosada é o prédio mais simbólico para os argentinos. Seus pilares rosados e suas janelas grandiosas representam a instância máxima de poder na Argentina que historicamente levam multidões à Plaza de Mayo. Seja para protestar pelo aumento dos impostos de exportação sobre a carne, como aconteceu durante a semana, seja para pedir justiça às vítimas desaparecidas durante a Ditadura Militar, como acontece toda quinta-feira, ou para ouvir os comícios populares de Evita Péron nos anos 40, quando ela se consagrou como a primeira-dama mais populista da história da Argentina.
A grande maestria dos argentinos para manter os prédios históricos fica por conta da forma como aproveitaram os espaços. Os prédios não estão preservados simplesmente para serem construções intocáveis ou terem destinação especial, abrigando museus e teatros apenas. Eles são preservados porque têm utilidade no dia-a-dia. Neles estão, por exemplo, os mais belos cafés da cidade. O Café Tortoni é o mais tradicional deles. A casa completa 150 anos em 2008 e é um atrativo luxuoso tanto para os turistas quanto para os próprios portenhos. Suas paredes altas e antigas, que facilmente seriam desprezadas no Brasil, dão ainda mais elegância para um dos programas mais elegantes da cidade: assistir os shows de tango. O café é tão tradicional, que costuma ter a formação de pequenas filas em sua portaria de pessoas interessadas nos espetáculos.

O antigo e o novo
Mesmo em trechos menos glamourosos, os argentinos realmente dão demonstrações de como é possível harmonizar o antigo e o novo. Os prédios também abrigam hotéis, albergues, padarias, lan houses, lojas e todo tipo de estabelecimento comercial. Os imponentes prédios ainda abrigam órgãos públicos importantes como os Departamentos de Saúde e de Águas de Buenos Aires. A tendência é que o visitante repare primeiro no capricho das construções para somente depois perceber que se trata de departamentos do governo.
Fora do centro, os bairros também harmonizam prédios novos e antigos com praticidade. Em San Telmo, a maior parte dos albergues e bares está instalada em casarões antigos. Não estranhe se encontrar uma banheira à moda antiga e uma pia com pedestal trabalhado no banheiro ou se tiver que usar um elevador com portas em formato de grade, que precisam ser fechadas manualmente.
O bairro de San Telmo, que tem tradição também em abrigar turistas do mundo inteiro, guarda suas preciosidades em termos de arquitetura. O prédio da Faculdade de Engenharia, o Museu Histórico Nacional e o complexo de igrejas jesuítas do bairro formam um cartão postal para San Telmo.
Na Recoleta, um dos bairros mais tradicionais e caros de Buenos Aires, o turista encontra praças por todo lado e edifícios emblemáticos. O bairro exibe, por exemplo, o Monumento aos Caídos na Guerra das Malvinas. A Praça de San Martín é a mais importante, nela está o clássico Cemitério da Recoleta, famoso pelos luxuosos túmulos das famílias mais tradicionais e pela lápide de Evita.
De forma mais rústica, porém com um visual surpreendentemente colorido, está o patrimônio histórico de Caminito no bairro de La Boca, na periferia da cidade. O lugar é considerado o berço do tango e geralmente vem representado nos cartões postais por um único casarão. Mas é quase impossível não se surpreender ao entrar por suas vielas e se deparar com uma série de prédios antigos e, propositalmente, coloridos. Restaurantes e lojas se misturam pelos casarões, que abrigam um ar boêmio incomparável para Buenos Aires, atraindo turistas e até produções de documentários.
O bairro de La Boca ainda traz o estádio do Boca Juniors, o famoso La Bombonera, também cercado por incríveis casarões ocupados por famílias pobres da periferia portenha.

Modernidade
Cidade é cortada por largas avenidas
O mais interessante é que Buenos Aires não parou no tempo. Muito pelo contrário. A capital argentina dá lições sábias de conciliação entre seu patrimônio histórico e o que há de mais moderno em termos de urbanismo. A cidade é cruzada de fora a fora por avenidas extremamente largas com até sete pistas, o que praticamente anula qualquer possibilidade de lentidão no trânsito. Essas avenidas ligam os bairros de forma prática e organizada, facilitando o cotidiano do povo portenho. A Nove de Julho é a avenida mais importante da cidade e a mais larga do mundo, com 170 metros de largura.
Já o “miolo” dos bairros é composto por ruas estreitas e vielas antigas, que permitem passeios a pé com tranqüilidade e até a realização de atrações simples como a Feira de Antingüidades de San Telmo. A distribuição das ruas pode ser considerada bem inteligente. No Centro, a Plaza de Mayo e o Obelisco, na avenida Nove de Julho, são ótimos pontos de referência para quem quer explorar a cidade. O Obelisco fica na Plaza de La República, na avenida Nove de Julho, e tem 67 m de altura. O monumento foi construído em 1936 para comemorar os 400 anos de fundação da cidade.
Outra mistura bem dosada entre o clássico e o novo está na rua Florida, bem no Centro da cidade. A rua lembra os calçadões de cidades paulistas como Ribeirão Preto e Bauru, com direito a lojas, restaurantes e até camelôs. No entanto, guarda suas peculiaridades, como esquinas com cafés charmosos e apresentações gratuitas de tango por artistas de rua.

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