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Classe A

Sabado, 29 de Março 2008 - 15h28

O banqueiro de Ribeirão Preto

MATHEUS URENHA O banqueiro de Ribeirão Preto

Filho de família tradicional de médicos ribeirão-pretanos, Nelson Rocha Augusto decidiu fazer Economia, incentivado por professores do colegial no antigo COC, entre eles Melhem Adas e Gilberto Abreu. Foi uma decisão bem acertada. Na Unicamp, onde cursou a faculdade, teve orientação de economistas pesos-pesados como Maria Conceição Tavares e Antônio Kandir, seu orientador na tese de mestrado sobre macroeconomia. Daí em diante, foi um caminho de muito trabalho e dedicação, mas, também, de muitos êxitos. Augusto foi economista chefe do Banco Francês Brasileiro e do Banco Votorantim, que ajudou inclusive a criar. Entre 2003 e final de 2005 presidiu a administradora de recursos financeiros do Banco do Brasil, a BB DTVM. Depois voltou para Ribeirão Preto, onde hoje, aos 44 anos de idade, é um dos mais jovens banqueiros do Brasil.

Delcy Mac Cruz - Como é a sua relação com Ribeirão Preto?
Nelson Rocha Augusto - Bastante longa. Meu bisavô, do lado materno, Carvalho Rocha, chegou à cidade vindo da Itália. Minha avó nasceu aqui, assim como minha mãe e eu e meus três filhos nascemos em Ribeirão. São várias gerações. Conta a história que meu bisavô veio para cá antes de a cidade ser fundada como cidade. Dizem inclusive que ele foi uma das pessoas que ajudaram a doar terras para que a cidade começasse. Em homenagem, virou patrono do bairro Vila Carvalho. Os familiares de meu pai são de São Paulo. Meu avô paterno, Eugênio Rocha, era médico formado pela Praia Vermelha, no Rio, a segunda faculdade de Medicina do país. Veio para Ribeirão orientado pelo comando central do país porque faltava médicos na região. Era o período do ciclo do café [começo da década de 1920]. Foi um dos primeiros médicos na cidade. Na família, pelo lado de minha mãe, era tradição seguir a medicina. Meu pai, Nelson Augusto, se formou na primeira turma da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. Ficou como professor, se aposentou, mas trabalha como ginecologista até hoje. Ele conheceu minha mãe no campus, onde também cursava Medicina. É muita origem dentro de Ribeirão. Identidade ribeirão-pretana fortíssima.

(Continua na página A26)
Mac - Como foram os primeiros anos escolares?
Augusto - Estudei em escolas do estado a vida toda. Comecei fazendo primário no Guimarães Júnior. Fiz um ano só no Otoniel Mota, o quarto ano do primário, e fui para o Sebastião Fernandes Palma, no bairro Vila Seixas. Fiz, depois, o colegial no COC da outra época, com professores com o Gilberto Abreu, Melhem Adas e João Álvares Costa, no fim dos anos 70. Até por uma força muito grande nesta área de humanas, desse colegial, eu já escolhi rapidamente e fundei o primeiro centro cívico do COC, que presidi.

Mac - E por que o sr. foi fazer economia, pertencendo a uma família de médicos?
Augusto - Aquele ambiente de discutir História, Sociologia, Antropologia e Política, dentro de um colegial fortíssimo como o que passei, me estimulou a fazer. E Economia é um curso que, na verdade, usa como ferramental de trabalho todas essas ciências humanas. Então, um economista de boa qualidade precisa saber muito História, Antropologia, Sociologia e Política. A Matemática é ferramental, mas a Economia não é uma ciência exata, é totalmente humana. Até porque ela depende da reação dos agentes econômicos, que são humanos. Quer dizer: usa a Matemática como ferramental, e por isso minha escolha por fazer Economia na Unicamp, na época [1981, 1982] muito forte, com muita densidade acadêmica.

Mac - E como foi na Unicamp?
Augusto - A faculdade foi momento riquíssimo: 81 foi o ano em que o Maluf [Paulo Maluf, então governador do estado de São Paulo] mandou fazer intervenção na Unicamp. O movimento político-estudantil foi muito forte. Eu participei de uma chapa e ganhamos a liderança. Na época, o curso de Economia pertencia ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. No meio do curso, junto com um ribeirão-pretano, o Fernando Rosseti, que fazia Sociologia, montamos chapa para criar primeiro Centro Acadêmico do Instituto de Economia. Tem até hoje uma placa de homenagem que cita meu nome. Porque foi o primeiro Centro Acadêmico. Não quer dizer que seja o melhor. Mas é o primeiro. Era época forte nos movimentos estudantis, era o período das Diretas Já [que pedia eleição direta para a presidência da República], e o curso de Economia, então, era de período integral. Passava o dia todo na universidade. Reconheço: tive o benefício de nunca ter precisado pagar escola e, sendo de uma família de classe média que me sustentava, não precisava trabalhar. Eu aproveitava muito bem o tempo, estudava seriamente, mas tinha tempo para a prática de esportes [investiu muito em natação e capoeira].

Mac - Cite alguns de seus professores
Augusto - Luiz Gonzaga Belluzo, Maria Conceição Tavares, João Manuel Cardoso de Melo, Antônio Kandir, que foi meu orientador na tese de Mestrado.

Simei Morais - A universidade de hoje e o mercado permitem a mesma vivência da década de 80?
Augusto - O mercado permite. Eu contrato muita gente. Em minha carreira profissional tenho que entrevistar muitos candidatos. Tenho convicção total que hoje você precisa ter alguns diferenciais quando vai contratar. Esses diferenciais são como a pessoa vive, como ela enxerga o mundo. Exemplos: que peça de teatro você viu, que música você ouve, que filme você vê, quais livros lê. São perguntas que faço durante entrevistas com candidatos. Porque preencher planilhas, ou saber a matéria básica fornecida pela escola, dou isso como certo. É commodity. Você pega a molecada, e ela sabe muito. É melhor que nós, porque a formação é melhor. Mas o outro tipo de vivência, da relação humana, de ter visão de mundo, enxergar como as coisas acontecem, ter interesse pelos aspectos históricos, faço muito esse tipo de pergunta para conhecer a personalidade do candidato. É muito difícil eu contratar alguém que não leia jornal. Para qualquer função. E a geração de hoje não lê jornal.

Mac - O sr. iniciou a carreira profissional em São Paulo. Conte um pouco dessa fase de sua vida.
Augusto - Para completar minha formação acadêmica, fiz a opção de não fazer mestrado na Unicamp, mas na capital, na PUC. Porque eu já conhecia como os professores da Unicamp pensavam.

Simei - Qual o tema de seu curso de mestrado?
Augusto - Em Macroeconomia, fazendo um trabalho sobre o processo de formação de preços dos produtos agrícolas e o impacto disso na inflação.

Simei - Grandes empresas vão continuar mandando nos preços de mercado até quando?
Augusto - Até sempre, porque a capacidade de distribuição delas, e o peso que têm dentro do mercado fazem com que sempre tenham influência importante no preço. Digo até sempre enquanto o sistema econômico for capitalista, e em qualquer lugar do mundo, que é organizado por grandes conglomerados industriais, comerciais ou financeiros, que têm forte poder de marcação de preços.

Simei - A maioria da população não está à margem de como funciona esse sistema? O sr. não acha que a maioria não pensa a respeito, e se pensasse mudaria a situação de alguma forma?
Augusto - É uma pergunta bastante difícil de responder. Eu diria que para você compreender o corpo humano, e ter uma boa saúde, não é preciso necessariamente ser médico ou biólogo. Então não vou esperar que uma parcela importante da população entenda bem os mecanismos de funcionamento da economia, de formação de preços, porque seria pedir demais. Eu tenho orgulho de pertencer à geração de economistas que colaborou com o fim da inflação no país. Durante mais de 30 anos vivemos com inflação alta e hoje não existe mais isso. Quero dizer com isso que a população acompanha, relativamente bem, o que ocorre, sem necessariamente compreender os conceitos do ponto de vista acadêmico. Além da PUC, onde o curso de mestrado foi em Macroeconomia, assumi como pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), levado pelo Kandir, e comecei a fazer estudo sobre saneamento básico no Brasil.

Mac - Depois do Cebrap, e da formação acadêmica, o sr. foi para o Banco Francês e Brasileiro?
Augusto - Sim. Quando entrei no mercado financeiro, foi para a assessoria geral da diretoria do banco. Na época se consumia informações econômicas vindas de consultores como José Mendonça de Barros e Luís Paulo Rosenberg. Me deram a chance de criar essa estrutura de informações e cinco meses depois era o economista chefe da instituição, respondendo diretamente às diretorias no país e em Paris, onde ficava a sede. Fiquei no banco por quatro anos [até por volta de 1990]. De lá, saí para integrar equipe que tinha a missão de montar um novo banco, que era o Banco Votorantim. Partimos do zero. Fui eu, inclusive, quem redigiu, para o Banco Central, os documentos de solicitação de abertura do banco. Hoje você tem que fazer planilhas, business plan, para pedir a abertura de uma instituição financeira.

Simei - Era mais simples abrir um banco?
Augusto - Era bem mais simples.
Mac - Essa equipe ficava no prédio do Grupo Votorantim, no Centro da capital?
Augusto - Sim, ficávamos na sede do Grupo, no Centrão, dentro de um andar, inclusive para não gastar dinheiro [risos]. Foi uma experiência absolutamente maravilhosa porque estávamos abrindo um banco do zero para um grupo como o Votorantim. Era a terceira vez que a família Ermírio de Moraes tentava experiência na área financeira. As duas vezes anteriores não deram muito certo. Dessa vez colocaram o nome deles e hoje é uma potência.

Simei - Foi uma empreitada até criar o banco?
Augusto - Montamos, ficamos, coloquei toda minha energia, minha alma, minha motivação e virei o economista chefe do banco. Era 1992 e, no cargo, passei pelo Plano Collor etc. Mas estava cansado de ficar em São Paulo, com aquela qualidade de vida horrorosa, embora a vida profissional e cultural era excelente. Então larguei uma carreira brilhante e vim para Ribeirão Preto dar consultoria a algumas empresas e tentar atividade ligada à universidade, já que conhecia algumas pessoas que vinham montar a Faculdade de Economia e Administração (FEA) na USP, como o Rudinei Toneto Júnior [atual diretor da Faculdade]. Mas vim com a bagagem do projeto de criar um banco regional, depois de tanto estudar o sistema financeiro. Foi o embrião do Banco Ribeirão Preto.

Simei - O que permitia naquele momento o projeto de criar um banco regional?
Augusto - A estabilização monetária. O sistema financeiro do país estava todo desenhado pelo que tecnicamente chamamos de captar o imposto inflacionário. Então a estrutura bancária era toda feita para uma inflação alta. Com uma inflação baixa, o banco passa a ter necessidade de estar próximo do seu cliente - principalmente pessoas jurídicas - para aplicação em ativos mais elaborados, do que aplicações básicas. E abre oportunidade porque com o banco regional se conhece mais a economia da região. Nosso ponto forte é exatamente estudar o ambiente Macroeconômico e os setores atuantes na região. O modelo de banco regional é muito comum, por exemplo, nos Estados Unidos, onde existem mais de oito mil. Hoje o BRP (Banco Ribeirão Preto) - aberto em abril de 1995 - não é mais prioritariamente regional, porque temos escritório em São Paulo e clientes no Rio de Janeiro, entre outros estados. Quebramos a fronteira regional.

Simei – Em que tipo de foco regional o Banco atua?
Augusto - Complexo agroindustrial, as áreas de serviços e educacional, alguma coisa da indústria, como as ligadas às áreas de saúde, tecnológica. Os setores que conhecemos bem são os onde atuamos com mais força. Nosso negócio não é varejo. Não temos rede de agências, não há talão de cheque ou cartão de crédito.

Mac - Como foi sua ligação com o empresário Adriano Coselli?
Augusto - Quando vim para cá [em 1992], enquanto procurava trabalho, o sr. Adriano tinha crescido bastante na empresa dele e precisava de ajuda porque profissionalizava mais a companhia. Comecei a prestar trabalhos, como assessor. Passei a ter uma identidade muito importante com ele, que, por sua vez, já conhecia profundamente minha família. Ele foi paciente de meu pai em uma cirurgia digestiva. O empresário, então, tinha informações sobre meu DNA. E isso em uma cidade como Ribeirão, naquela época, fazia diferença muito grande. Mostrei-lhe então meu projeto de criar o banco e ele comprou a idéia. Conseguiu os recursos para a implantação e por isso até hoje é o controlador da instituição. Já havia um modelo de instituição porque o Martins [companhia atacadista de Uberlândia, concorrente da Coselli] tinha um banco, mas que era um braço financeiro do grupo. Bem diferente do BRP, que é complemente independente do grupo. O controle é da pessoa física do sr. Adriano, por meio de uma holding, que não possui vaso comunicante com nenhuma das empresas do grupo Coselli.

Mac - Quando o sr. tornou-se acionista do Banco?
Augusto - Em 2002, ele abriu essa oportunidade. Eu e o Ermes Stabile Júnior [diretor comercial] fomos convertendo bônus em ações. Convidei o ex-ministro Antônio Kandir, que queria entrar no mercado financeiro, para também ter participação acionária. Criou-se, então, um grupo de acionistas onde cada um tem entre 5% a 10% de participação. Há cerca de um ano, em função de o risco econômico ter mudado de patamar, instituímos conselho de administração. De menos de 12 meses para cá, o Banco cresceu quase 80%. Os resultados, em termos de lucro, estão menores porque os custos aumentaram, mas a carteira cresceu.

Simei - Qual é hoje o número de clientes?
Augusto - Cerca de 220 pessoas jurídicas e 300 pessoas físicas. Atendemos também a clientes de pequeno porte. Não damos crédito no varejo. Se se quiser comprar um automóvel, não é o BRP que fará isso. Mas quem quiser ter o dinheiro administrado no longo prazo, mesmo que seja R$ 5 mil, isso é conosco. Para a pessoa jurídica, que tiver um bom projeto, vamos criar as condições financeiras para a implantação desse projeto. O que mais nos orgulha é o índice de fidelização, que é altíssimo. Conto literalmente nos dedos quantos clientes deixaram de operar conosco.

Simei - Onde estão esses clientes?
Augusto - Na região de Ribeirão Preto, onde estão 80% da base. Mas a aceleração de novos clientes já é maior hoje fora da região.


Mac – O sr. é considerado grande economista, desses que são procurados pelas grandes instituições financeiras. Por que, então, voltar a Ribeirão Preto?
Augusto - Porque tenho paixão enorme e vínculos importantíssimos com essa cidade. Mas hoje divido meu tempo entre Ribeirão Preto e São Paulo, onde temos escritório. Na capital também participei do grupo que fez o projeto que preparou o terreno para a Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) abrir capital e, agora, ter feito a fusão com a Bolsa de Valores de SP (Bovespa).
Mac - Qual a importância dessa fusão?
Augusto - Essa fusão, que criou o nome provisório de Nova Bolsa, é um passo importantíssimo para que o Brasil tenha peso internacional diferenciado e o mercado financeiro se internacionalize. Os bancos brasileiros são excelentes do ponto-de-vista de rentabilidade e de qualidade de gestão de crédito, basta ver que desde antes do Plano Real, em 1994, não tivemos mais problemas nos bancos. Mas esses bancos ainda estão muito circunscritos ao Brasil e precisam quebrar essa fronteira. Não é, evidente, projeto para o Banco Ribeirão Preto, mas para bancos grandes precisam abrir esse caminho internacional para ampliar a musculatura. Até porque o Brasil tem muito espaço para crescer economicamente. Crescemos bastante em termos de crédito proporcional ao Produto Interno Bruto (PIB) - hoje o crédito está em torno de 35% do PIB e deve fechar o ano próximo dos 40%, ante 60% a 80% de outros países emergentes. Saí da DTVM porque queria voltar para a iniciativa privada. Entendi que havia cumprido minha missão.

Mac - A crise dos EUA bate ou vai bater em nossa porta?
Augusto - Sem dúvidas. Não há como haver um descolamento. A crise americana precisa ser respeitada. É uma crise séria, importante. A meu ver, provocaram isso deliberadamente, como estratégia de política econômica. O dólar perdeu aproximadamente 25% em 14, 15 meses em relação ao iêne e ao euro. Isso também é parte da explicação de porque o real ficou tão forte.

Mac - Quais os reflexos disso?
Augusto - Quando desvalorizam o dólar, certamente já provocam um pouco de tensão para promover ajuste na economia americana. Mas isso obriga que as empresas americanas fiquem mais eficientes, isso porque a desvalorização da moeda americana faz com que os produtos importados fiquem mais competitivos. Mas, como já disse, eles têm muita eficiência e produtividade. Só olhar na informática. Ninguém respira sem Microsoft. Só um parêntese: o século passado começou como da física e da química, acaba como o da comunicação (celulares etc) e esse certamente é o da biologia (célula-tronco). Quem vai ser o milionário de 2050? Quem resolver o problema de cura de doenças através da pesquisa tecnológica da biologia. Até porque o resto está dominado. E a probabilidade de os americanos chegarem a esse nível, pelo tanto de dinheiro que investem nas universidades e nas pesquisas, é muito grande. Fechado o parêntese. Então, os americanos vão ter, sim, uma boa recuperação, mas ela será lenta e longa, porque o problema é complexo, caro e grande. E no bojo de tudo isso há a eleição americana deste ano, etc. Eu trabalho com o cenário que a recuperação para a crise sairá mais em 2009 do que nesse ano. Com a queda da atividade americana, e como o PIB dos EUA é da ordem de US$ 13 trilhões, acaba influenciando o mundo todo, e vai influenciar aqui também.

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