Jornal A CIDADE

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Hilário Bocchi

Sabado, 29 de Março 2008 - 15h32

O aposentado


Esta semana passei por uma experiência muito importante na minha vida.
Conversei com um senhor de noventa anos de idade. Aposentado, lento em seus movimentos, alegre com a vida e triste com seus amigos e familiares.
Quando a conversa tomou o ritmo de declaração e até de reclamação tentei anotar tudo que dizia.
Achei que deveria escrever, ou descrever, as declarações deste aposentado, que pode sintetizar o sofrimento das pessoas idosas.

A arte de advogar
Nós advogados também doamos parte de nosso tempo para ouvir as queixas não jurídicas de nossos clientes.
Quantas vezes você já ouviu um advogado dizer que às vezes tem até que ser psicólogo...
Nesta maravilhosa arte de advogar cruzam pelos nossos caminhos pessoas como esta, que vou chamar de “Aposentado”.
O aposentado, em determinado momento de nossa conversa, começou a descrever como nos sentiríamos na idade dele.

Talvez não tenha se dado conta disso...
Hilário, disse ele, viverei muito pouco tempo e as pessoas que estão ao meu redor ainda não compreenderam que qualquer separação ou distanciamento é um grande sofrimento para mim.
Cada momento que fico distante é um momento, talvez o último de minha vida, de ficar ao lado das pessoas que amo. Quando deles cuidava, então jovens e dependentes, estava sempre presente; agora que estou velho e deles dependo, esquecem de mim.
Fui parar numa casa de repouso e achavam que a visita do final de semana era tudo.
Realmente! Era tudo o que eu não queria...

Outros valores
Eu sei, disse o aposentado, que as pessoas crescem, assumem novos compromissos, trabalham muito e às vezes não têm tempo para os velhos, mas falam o dia inteiro ao celular e nem na hora do trânsito lembram-se de dar uma ligadinha e perguntar como eu estou.
As pessoas que amo ainda não se deram conta de que elas têm muitas coisas: trabalho, amigos, lazer, namorada, esposa e filhos; e eu só tenho elas.
Esquecimento como retribuição!!! Ahh... por essa não esperava...

Mas é assim mesmo
Olha Hilário, completou suas últimas palavras: Não entendi tudo que você me disse, mas o fato de falar comigo me faz bem.
Em tom de súplica pediu: converse comigo mais vezes.
Finalizou a conversa dizendo: Você vai envelhecer e perceberá que as pessoas também se afastarão de você sem perceberem que a simples presença tornaria o resto da minha vida mais agradável.
Achei que tudo que fiz em grande parte da minha vida compensaria os pequenos momentos de dor ao final dela. Enganei-me. Agora é tarde.
Pense nisso...

*Hilário Bocchi Júnior é advogado especializado em Previdência Social e escreve aos domingos.

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