Geral
Sabado, 29 de Março 2008 - 15h33
JOSÉ ERNESTO DOS SANTOS Nutrólogo diz que 26% da população estão acima do peso, sobretudo nas classes média e baixa (C, D e E)
O número de pessoas com quadro de obesidade mórbida em Ribeirão Preto praticamente triplicou nos últimos 13 anos, segundo o Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP-Ribeirão. Em 1995, apenas 0,8% dos adultos da cidade apresentava Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 40. Hoje, o número chega a 2,2% dos 300.000 ribeirão-pretanos em idade adulta, perfazendo 6 mil pessoas com peso muito acima do recomendável para uma vida saudável.
Essas constatações foram feitas pelo nutrólogo e professor associado do departamento, José Ernesto dos Santos. Ele coordena um trabalho pioneiro no país para tratar pessoas com transtornos alimentares, como anorexia nervosa, bulimia nervosa e obesidade. Esse grupo é formado por médicos, nutricionistas, psicólogos, psiquiatras e terapeutas ocupacionais.
Segundo ele, o IMC é uma fórmula que indica se um adulto está acima do peso, se está obeso, abaixo do peso ideal ou com peso normal. O IMC é reconhecido como padrão internacional para avaliar o grau de obesidade.
Para saber em qual das faixas você se enquadra, divida seu peso (em quilos) por sua altura ao quadrado (em metros). Uma pessoa abaixo do peso recomendável (caso das pessoas portadoras de anorexia-ver reportagem abaixo) apresenta IMC inferior a 18,5. Quem possui IMC entre 18,5 e 24,9 apresenta peso normal.
Entre 25 e 29,9 o IMC indica sobrepeso. Entre 30 e 34, a pessoa já é considerada portadora de obesidade (grau I). Entre 35 e 39,9, a obesidade se torna mais séria (grau II). Acima de 40, fica configurado o quadro de obesidade mórbida. Os casos estão aumentando na faixa situada entre as classes média e baixa (C, D e E). Segundo o nutrólogo, 26% da população adulta da região de Ribeirão apresentam problemas com excesso de peso e obesidade.
“É um número significativo e preocupante. Se nós levarmos em consideração que as condições culturais e sociais não se modificam, a tendência dessa situação é piorar. Cada vez se come mais, cada vez se faz menos exercícios e cada vez os alimentos são mais baratos”.
HC faz oito cirurgias de redução do estômago todo mês
O Hospital das Clínicas da USP-Ribeirão realiza oito cirurgias de redução de estômago por mês na tentativa de melhorar as condições de saúde de pessoas com quadro de obesidade mórbida, que não conseguiram emagrecer apenas com o tratamento clínico e mudança de hábitos alimentares. Em seis anos, 250 pacientes já foram atendidos.
O candidato também não pode ter problemas psiquiátricos sérios, como compulsão alimentar, por exemplo. Uma psicóloga avalia os pacientes e pode adiar a cirurgia, para que ele seja tratado primeiramente, segundo José Ernesto. Ele informou que o paciente deve ficar internado alguns dias antes da cirurgia, para experimentar a dieta que ele terá que fazer depois de operado.
“Uma coisa que a pessoa precisa saber é que a cirurgia não é para obesidade, mas sim para reduzir o estômago e o intestino. O tratamento para obesidade começa depois da cirurgia, pois a pessoa terá que fazer uma alimentação adequada, provavelmente forçada pela limitação que ela tem, no estômago e no intestino, provocada pelo procedimento”, explicou.
Se o peso da pessoa fosse o único indicativo do êxito da cirurgia, José Ernesto disse que a cirurgia é “fantástica”. Segundo ele, há queda da pressão arterial, dos níveis de colesterol (gordura no sangue) e de glicemia (diabetes).
Ele disse que o resultado é “muito impressionante” para uma pessoa de 240 quilos que teve o peso reduzido para 110, após um ano de cirurgia. Diminuem, ainda, os problemas ósseos, que eram provocados pela sobrecarga do peso nas articulações.
Problemas
Porém, o nutrólogo lembrou que existem várias restrições: depois da cirurgia, o primeiro problema sério é o surgimento de um quadro de desnutrição. “Esse emagrecimento rápido é problemático. Como reduz o volume do estômago e o intestino, a pessoa vai comer menos e absorver menos, também. Isso faz com que esses indivíduos tenham que tomar suplementos de ferro e de Vitamina B12. Eles também precisam tomar cálcio, pois podem desenvolver osteoporose (fraqueza óssea)”
O nutrólogo afirmou que a idéia de que a cirurgia é uma “mágica” está sendo vendida de forma errônea para a sociedade, sobretudo entre os pacientes que podem pagar pelo procedimento na rede particular. Segundo ele, o Sistema Único de Saúde (SUS) impõe várias regras para a realização da cirurgia.
“Às vezes, nos recebemos pacientes com IMC 38. Se nós falarmos que o caso dela não é indicado para cirurgia, pelo fato dessa pessoa não ter o IMC acima de 40, em vez de tentar emagrecer, ela vai para casa e come mais ainda, até chegar ao índice 40”, relatou.
Recaídas
A equipe também registrou casos de pessoas que fizeram a cirurgia e voltaram a engordar, um ano e meio depois. De acordo com a nutricionista Rosane Pilot Pessa Ribeiro, professora-doutora da Escola de Enfermagem da USP-Ribeirão, se o paciente não consegue mudar hábitos de alimentação, o tamanho reduzido do estômago não irá impedir o retorno do ganho de peso se a pessoa comer coisas muito calóricas, como uma lata de leite condensado, por exemplo.
“Hoje existem alimentos mais calóricos, em gordura e em açúcares, e num preço mais baixo, como refrigerantes de 2 litros e salgadinhos industrializados por um real”, comentou Rosane.
Demanda
Embora o HC realize 80 cirurgias anuais (foram 250 em seis anos), o nutrólogo e a nutricionista disseram que a demanda é quatro vezes maior.
Ou seja, pelo menos 320 pacientes poderiam ser operados em Ribeirão, dado o crescimento do número de pacientes com obesidade mórbida. Segundo José Ernesto, é o momento de outras equipes de outros hospitais e outras faculdades de Medicina de Ribeirão sejam treinadas para atender também esses casos. “Os pacientes são mandados para nós e não temos como devolver. O HC não dá conta, inclusive, financeiramente. São 6.000 pacientes e se esse ambulatório inteiro atendesse somente obesidade, levaríamos muitos anos para fazer isso”, afirmou.