Especial
Sabado, 29 de Março 2008 - 15h38
PADRE ELOY, HOJE CÔNEGO EMÉRITO Infância pobre e difícil: ex-lavrador, ex-frentista e ex-faxineiro
Até 29 anos de idade, precariamente alfabetizado, ele foi lavrador, frentista e faxineiro no 14 de Março, o clube mais chique de Batatais. No posto de combustíveis em que trabalhou, o São Jorge, quase foi esfaqueado numa tentativa de assalto. Neste período, teve umas três ou quatro namoradas. Como todo homem do povo, gostava de futebol e ouvia os jogos do Palmeiras pelo rádio. Era apegado aos pais e aos dez irmãos.
Por tudo isso, ninguém acreditava que aquele homem magro, de 1,70 m de altura, que tinha feito apenas o grupo escolar em Brodowski, onde nasceu, pudesse um dia tornar-se padre.
1º aviso
Mas a Deus tudo é permitido. O primeiro aviso veio no dia 13 de junho de 1950. Ele tinha 16 anos e já rezava para que uma alma caridosa o levasse a um seminário. Durante a missa, naquele Santo Antônio distante, o padre da igreja de Brodowski, de supetão, sem mais nem menos, disse que iria indicá-lo para seminarista. Ele levou um susto e sentiu que tinha acabado de receber uma mensagem. Mas os cuidados que tinha para com os pais o impediram de ir. Em seguida, a família mudou-se para a fazenda Bela Vista (Batatais) onde deu um duro danado. Eram colonos, ganhavam quase nada e lutavam para sair da miséria.
Santa Terezinha
Eloy Pupin nunca desistiu da idéia de se tornar padre. Faltando um mês para completar 29 anos - isso em 1963 - iniciou uma novena pedindo a intercessão de Santa Terezinha do Menino Jesus. No quarto dia da novena, a vida de Eloy mudou radicalmente. Os pais, com sua ajuda, compraram uma casa na cidade. Saiu também a aposentadoria do pai. Tudo ficou bem de repente e ele se sentiu livre para voar. Dom Emílio Pignolli, procurador vocacional, imediatamente mandou-o para um seminário na Freguesia do Ó, em São Paulo. Lá, fez propedêutica (espécie de madureza, em que se fazia ginásio e colégio em três anos). Depois, cursou quatro anos de filosofia, psicologia e sociologia. O curso de teologia fez com os padres salesianos, no Alto da Lapa.
Ordenou-se onze anos depois, no dia 20 de janeiro de 1974. Já contava, então, 40 anos de idade. Foi pároco em Sertãozinho e reitor de seminário em Ribeirão Preto.
Em Batatais
Cinco anos depois, em 19 de maio de 1980, tornou-se pároco da igreja que guarda a Via Sacra de Cândido Portinari. Até a aposentadoria, no dia 6 de janeiro deste ano, construiu sete capelas no município, um salão paroquial, quatro salas de catequese, um prédio que está rendendo aluguel, reformou a casa paroquial e a Matriz, onde seu último trabalho foi substituir o piso por granito.
“Me tornei padre pela graça de Deus. E sou feliz”.
O som do sino
O som do sino da Matriz é majestoso e merece capítulo especial. Eram 16h de quinta-feira, quando ouvi seu badalar. Me impressionou. Perguntei se era medieval. Calmo, padre Eloy respondeu que, há uns cinco anos, pediram R$ 15 mil reais só para instalar os sinos que a igreja já tinha. Não aceitou.
Um rapaz de Botucatu resolveu o problema. Ele gravou vários badalos de tradicionais catedrais européias e vendeu a fita ao padre Eloy por R$ 180. Trata-se de uma prosaica fita cassete, acionada de hora em hora, mecanicamente, por um relógio.
Nestes 28 anos, influenciou e teve atritos com uma geração de políticos locais. Há os que gostam e os que não são muitos chegados a ele. Ainda hoje escreve artigos num semanário local e apresenta a Ave-Maria numa rádio.
Com 74 anos e faltando um para apresentar renúncia ao arcebispo, em observância ao Direito Canônico, resolveu aposentar-se. Tornou-se cônego-emérito. Envolvido com a parapsicologia, mantém-se ativo: dá cursos na Cúria de Ribeirão, todas as terças-feiras. E não pára de estudar.
Há três anos, terminou um curso de Filosofia em Educação na faculdade Moura Lacerda e escreveu um livro sobre o tema. Estava com 71 anos e era o vovô da classe.
Padre Eloy recomenda a parapsicologia
Com mestrado no Centro Latino Americano de Parapsicologia (CLAP), padre Eloy Pupin se diz um antiexorcista convicto. Ele admite a existência de padres exorcistas mas explica que o religioso que usa essa prática não reflete exatamente o figurino criado pelo cinema: padre esquelético, vestido com sobretudo negro e carregando uma valise repleta de crucifixos, óleos e imagens.
“Os padres exorcistas transmitem boa impressão e andam razoavelmente bem vestidos”, diz.
Padre Eloy é contra o exorcismo por entender que a ciência pode explicar melhor esses fenômenos.
“Quando surge um fenômeno misterioso, nunca a teologia deve dar o primeiro palpite. Antes, vai o cientista, o psicanalista, o psiquiatra, o neurologista, a parapsicologia”.
Para o padre Eloy, o demônio não entra no corpo de ninguém. São fenômenos que estão no inconsciente e logo a pessoa os atribuem ao além ou ao diabo.
“A teologia moderna ensina que Deus não permite isso. Seria um contra-senso Deus que nos ama permitir que o inimigo se aloje dentro de nós. É o inconsciente doentio que provoca tudo isso. Aí entram os parapsicólogos, que ensinam, explicam e tiram o medo, a ansiedade, tira o nervoso”, afirma.
Padre Eloy defende a necessidade de as pessoas freqüentarem cursos de parapsicologia.
“A pessoa adquire o equilíbrio emocional necessário, não se deixa levar pelo sistema nervoso. Se some o sono, não precisa correr atrás de psiquiatra”.
Um curso de parapsicologia dura cerca de três a quatro meses, com uma sessão por semana. Em agosto, por módicos R$ 35 mensais, ele inicia o curso do segundo semestre, em Ribeirão.
O ‘milagre’ do velho relógio quebrado, que voltou a funcionar
O padre Eloy Pupin afirma ter testemunhado um milagre na igreja onde foi pároco durante 28 anos. Milagre, para ele, tem que ser perfeito e duradouro. Exatamente como o que ocorreu.
Ele conta que em 2006, ao trocar o piso da igreja, localizou uma tumba. Pesquisou e soube que os restos mortais do cônego Joaquim Alves Ferreira, morto em 1898, ficaram enterrados naquele local por muito tempo. Soube também que o sobrinho do cônego, o monsenhor Joaquim Alves Ferreira (tinham o mesmo nome) no ano de 44 transferiu o corpo do tio para o cemitério Bom Jesus. E pediu que, quando morresse, fosse sepultado junto com o tio. O monsenhor Ferreira morreu em 46 e seu desejo atendido.
Durante a comemoraçao do tríduo de Bom Jesus, em 2006, o padre Eloy teve a idéia de levar, novamente, os restos mortais do cônego e do monsenhor para o interior da igreja. “Eles fizeram muito pela paróquia”, disse.
E assim fez. Às 14 horas do dia 3 de agosto de 2006, os restos mortais foram recolocados na tumba. Resultado: o relógio da igreja, que tinha deixado de funcionar há seis anos, voltou a trabalhar. Neste período, padre Eloy chamou inúmeros técnicos e ninguém conseguiu consertá-lo. Cada um dava um tipo de desculpa. O milagre: foi o monsenhor Ferreira que, em 1928, tinha doado o relógio para a igreja. Um relógio de 80 anos que voltou a funcionar com precisão.
Confissão dos pais
O padre Eloy ouviu a confissão de seus pais, a pedido deles. E admite que a garganta apertou e suou frio durante a confissão. Padre Eloy se orgulha muito disso. Ele ainda trabalhava em Sertãozinho, tinha acabado de se ordenar, quando seus pais comemoraram Bodas de Ouro (50 anos de casamento). Ele propôs que se confessassem com o monsenhor Mário, em Batatais. A princípio, aceitaram. Mas na hora agá o pai mudou de idéia e exigiu que o filho ouvisse a confissão.
Padre Eloy ainda argumentou. “Papai, não fica bem confessar comigo. Nem para o senhor, nem para mim. Tira a sua liberdade, o senhor pode esconder alguma coisa”.
Não adiantou.
“Meu pai fez uma confissão linda, demorada. Papai tinha uma conduta limpa, era justo, honesto, morreu pobre porque nunca foi ladrão. Hoje, você sabe, o sujeito rouba para ficar rico”.
Depois de ouvir o pai, Padre Eloy ouviu a mãe.
“Mas mamãe era religiosa, estava sempre no confessionário. Meu pai, apesar de respeitar a igreja, há décadas não confessava”. Com histórias assim, esse cônego emérito nunca vai sentir tédio.