Júlio Chiavenato
Segunda-Feira, 31 de Março 2008 - 22h34 A voz do povo é a voz de Deus. Por isso escuto, ouço e ouvo tudo o que dizem. Um sujeito entendido em cobras entende de tudo. Foi um tratador (ou vigia) de cobras quem me disse: “Um bando de picaretas usurpou o poder. Entraram em conchavo com a chinesada. Com a dengue descobriram uma nova maneira de faturar. Em vez de matar o mosquito, incentivaram a importação daquelas raquetes eletrônicas, que o povo compra pra caçar o Aedes.”
Perguntei-lhe se foi o comércio das raquetes eletrônicas que fritam os mosquitos que impediram uma ação efetiva contra a dengue. Ele garantiu que sim e acrescentou “que no Brasil existem cientistas capazes de inventar um veneno tiro e queda. Lá no Amazonas fizeram um inseticida natural, mas os caras que usurparam o poder, porque no Brasil é sempre assim, preferiram a raquete chinesa para faturar algum por fora”.
Se usarmos a imagem da raquete chinesa como metáfora, a “voz de Deus” está certa. A incapacidade de liquidar um mosquito só se explica pelas maracutaias governamentais. É difícil crer que depois de Emílio Ribas e Oswaldo Cruz, que trabalharam no início do século passado, seja complicado erradicar o mosquito.
Meu interlocutor analisa: “Ainda temos mentalidade colonialista. No Brasil se pergunta pros caras de 30 anos, como é, não casou? Herança colonialista: os portugueses queriam que as brasileiras parissem milhares de trabalhadores, para baratear a mão-de-obra.”
Pensem nas metáforas. Até Lula abusa delas. O Brasil só existe como a metáfora do que pretende ser: eternamente somos o país do futuro. Com um pé no passado: o mosquito da dengue. E uma idéia infantil de progresso: a tecnologia chinesa da raquete eletrônica. Ninguém ouve a voz de Deus.