Sérgio Mascarenhas
Sabado, 5 de Abril 2008 - 14h42 O fabuloso mural a ESCOLA DE ATENAS de Rafael de Sanzio (1483-1520) é sem dúvida um dos tesouros da humanidade. Pintado no alto Renascimento (1508-1511) no Vaticano, por encomenda do Papa Julio II, representa a meu ver, o ícone mais importante, verdadeiro resumo do conhecimento humano em todos os campos desde os primórdios da filosofia grega até o referido Alto Renascimento. Sua riqueza com cerca de 56 figuras, representando os mais variados campos do conhecimento como filosofia, astronomia, matemática, física, biologia, humanidades e muitos outros é o que se poderia chamar hoje altamente interdisciplinar. O mural é dominado pelas figuras centrais de Platão, com o indicador apontando para cima e Aristóteles, com a mão espalmada para baixo.
A simbologia indica a busca do conhecimento pelo pensamento abstrato (Platão), e a busca do conhecimento pela investigação empírica da natureza material (Aristóteles). Sabemos hoje que estas duas visões filosóficas da epistemologia (estudo do conhecimento) são complementares, mas que fundamentalmente a ciência depende da conjugação dos modelos abstratos (teóricos) com a sua validação final pela experimentação na natureza material (experimentos). Por isso a simbologia de Rafael é também cognominada de “Pax Philosophica”. Com Galileu e Newton, estruturou-se o Método Científico Moderno, que inaugurou o que chamo de Método da Razão Universal (vide minha crônica anterior sob este título). Galileu foi o grande experimentador e Newton o grande estruturador do método matemático abstrato, novamente o dualismo experimentação-abstração em magnífica complementação. Quero chamar atenção para uma outra dupla de grandes cientistas, desta vez já no século 20, que representam de maneira belíssima estas duas visões-de-mundo: Einstein e Marie Curie.Einstein (1879-1955), a abstração por excelência, como físico teórico autor das hipóteses mais revolucionárias da física moderna: teoria da relatividade e física quântica (à qual paradoxalmente nunca aderiu pela interpretação definitiva da chamada dualidade onda-partícula, com a sua famosa frase: Deus não joga dados...). Por outro lado Marie Curie (1867-1934), química, a grande descobridora dos fenômenos da radio-atividade, experimentadora por excelência, incansável e tremendamente obstinada. Einstein e Marie Curie representam, a meu ver, a dualidade abstração-experimentação e afinal estruturam juntos, o mesmo simbolismo da Escola de Atenas de Platão e Aristóteles. Por isso uso o meu vulto predileto de Janus, o Deus bifronte romano, com seus olhares para o passado e para o futuro, na ilustração minha e do Alfonso, para representar estes profundos símbolos da cultura humana de todos os tempos nas figuras exponenciais de suas épocas: a da cultura grega (Platão e Aristóteles) e da ciência moderna (Einstein e Marie Curie). Ambas culturas fundamentais e talvez novamente duais de maneira ainda mais ampla, representando os fundamentos históricos da cultura humana.
*Sérgio Mascarenhas é diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP-São Carlos