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Classe A

Sabado, 5 de Abril 2008 - 17h7

O avanço do álcool é caminho sem volta

WEBER SIAN O avanço do álcool é caminho sem volta "Ao contrário do petróleo, o álcool tende a diminuir o custo de produção, pois a produtividade e as tecnologias darão essa condição"

Jairo Balbo é uma das principais lideranças nacionais do setor sucroalcooleiro e conhecido por suas convicções. Assegura, por exemplo, que o etanol (álcool) vai ocupar parte do espaço do cada vez mais caro e escasso petróleo. E oferece alternativas para a Petrobras, que produz gasolina, não ser prejudicada com o avanço do álcool. Uma delas é a estatal aditivar a gasolina com álcool e inserir em outros países. Nesta e na página seguinte, ele fala também sobre suas experiências em projetos como a produção orgânica de cana-de-açúcar – muito bem-sucedida, principalmente no mercado externo – e por que a produção de eletricidade a partir da cana é inevitável para o Brasil.


ENTREVISTA A HÉLIO PELISSARI E EUCLIDES OLIVEIRA


Hélio Pelissari - O senhor é nascido em Sertãozinho mesmo?
Jairo Balbo – Sim. Nasci na Usina São Antônio, com uma parteira, em 12 de janeiro de 1953.

Hélio – Estudou em escolas da cidade?
Balbo – Estudei por dois anos em Grupo Escolar de Sertãozinho, onde tirei o diploma. Daí, eu fui para o Colégio Marista, em Ribeirão Preto, até a admissão. Fiz o César Lates e aí fui para a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), em Piracicaba, onde fiz Agronomia com especialização em Açúcar e Álcool. Entrei em 1975 e sai em 1978. Lógico que eu fiz a área agrícola também, mas eu sou um agrônomo de indústria. A Luiz de Queiroz tem dentro dela, inclusive, uma ‘destilariazinha’. Lá, quase que a Dedini implantou uma usina. Depois por algumas razões veio a grande crise, com mais açúcar do que álcool. Quando você entra em Piracicaba por Limeira, você vê um prédio abandonado. Ali era uma usina para estudos e desenvolvimento de tecnologias pelos alunos da Luiz de Queiroz. Mas virou um ‘fantasminha’.

Hélio – E depois de formado o sr. foi para a Usina Santo Antônio?
Balbo - No dia 1º de fevereiro de 1979, eu entrei no Grupo Balbo, na Usina Santo Antônio/São Francisco. Eu sou o diretor-industrial aqui na São Francisco, com funções executivas, e sou o diretor-adjunto do grupo. E esse grupo hoje é composto pela União São Paulo Agricultura Indústria e Comércio, em Rafard, que foi vendida e nós temos participação, a Agropecuária Iracema, a Bioenergia Cogeradora S/A (Energia Elétrica), a PHB Industrial (Plástico Biodegradável) junto com o grupo da Usina da Pedra, a Usina Uberaba (Açúcar e Álcool) que vai operar agora em maio, e a Native (Produtos Orgânicos Comercial Importadora e Exportadora).

Hélio - O senhor pegou a primeira fase do Proálcool? Como foi aquela experiência?
Balbo - Nessa fase, eu estava estudando e começando também meu trabalho na usina, diretamente ligado à produção. Aquela fase do Proálcool [criado em 1974] veio com aquela crise do petróleo, como todos nós sabemos. Os preços ficaram impraticáveis e foi quando surgiu a oportunidade do lançamento do programa. O que ocorreu no Brasil é que julgava-se que o álcool seria a salvação de tudo. Na verdade, o álcool veio para compor a matriz energética, assim como a energia do bagaço, e não para ser a solução de todos os problemas. O que aconteceu foi que, na década de 80, se produzia cerca de 100% de carros a álcool no Brasil. Nunca faltou álcool no Brasil, mas houve um problema de logística e até mesmo de interesse, que nós até hoje não sabemos direito como foi, que provocou a falta (do combustível) realmente num momento crítico. A demanda e a oferta estavam em equilíbrio. Qualquer erro logístico resultaria na falta nos postos. E foi o que aconteceu. O petróleo caiu de preço e a insegurança do consumidor do álcool ficou muito forte. O que veio hoje, para acabar com essa insegurança, é o (carro) flex, que você usa o produto que você quiser. Se o álcool for conveniente para você, você usa. O detalhe importante é que o petróleo tende a subir. Uma vez estando em águas profundas, fica mais caro para ser explorado, extraído. Enquanto que o álcool tende a diminuir o custo, pois a produtividade e as novas tecnologias que virão darão essa condição.

Hélio – Como foi que surgiu a idéia de cogerar energia em 1987? Vocês foram os primeiros do país a vender energia.
Balbo – O interessante é que a cogeração é, em linhas gerais, pegar a matéria-prima, o bagaço, queimar na caldeira e fazer energia térmica. Com essa, você vai na moenda com vapor de alta pressão (21, 42 ou 62 quilos), roda e transforma em (energia) mecânica. Se você pegar esse vapor que foi produzido na caldeira, que é térmico, e levar na turbina do gerador, você roda a turbina e produz (energia) mecânica, roda o gerador e produz (energia) elétrica. E a elétrica volta no motor da usina e produz mecânica. Ou a elétrica excedente vai embora para a rede. Isso é cogerar. E com o bagaço você faz vários tipos de energia. O que aconteceu, de fato, em 1987, é que nós fomos pioneiros na interligação com o sistema nacional. Quando nós tínhamos energia, nós fornecíamos para rede. Não sabíamos se era energia para Sertãozinho, Barrinha, Pradópolis. Ela ia para a rede. E quando nós não tínhamos energia, a rede fornecia para nós. Então, o fato, a novidade e o pioneirismo da Usina São Francisco foi a interligação do sistema. Isso quebrou o monopólio estatal, pois foi a primeira vez que se vendeu energia para uma empresa estatal, que era a CPFL (hoje privatizada) e que fez, na época, um grande trabalho com a São Francisco para conseguirmos fazer essa interligação. Ela colaborou demais. Não havia legislação. Nós, na safra, fornecíamos energia. Na entressafra, ela devolvia essa energia. Sem entrar dinheiro. Era uma troca.

Hélio – Não tinha pagamento?
Balbo - Não. Foi o melhor contrato de energia que fizemos até hoje. A energia era muito cara. Daí para frente, continuamos e fizemos um pool de usinas para tentar comercializar energia. Fizemos várias visitas ao exterior, mas sempre faltando a legislação. Até que isso foi sendo regulamentado, e continua evoluindo para melhor essa legislação, para que dê condições de que todas as usinas se interliguem. Se não for assim, vamos ter um potencial de energia limpa, renovável e brasileira sem ser utilizada, que é a biomassa, que vem da palha ou do bagaço.

Hélio – Hoje, em 262 municípios abrangidos pela CPFL Paulista, onde se incluem os municípios da região de Ribeirão Preto e de Sertãozinho, 14% da energia produzida vem da cana. O senhor acredita que existe uma tendência de crescimento, com essa ‘explosão’ de usinas em construção, apesar de ainda faltar interligação?
Balbo – Nós teríamos que fazer um cálculo. Em breve, algo como 2010 a 2015, que está aí, nós podemos chegar a uma Itaipu. Os grandes problemas hoje são de conexão. A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) está tentando dar uma solução adequada para cada caso. Existem usinas que nós chamamos de ‘retrofits’. As usinas existentes que, para colocar uma caldeira de 62 quilos, você precisa desativar outra de 21 quilos. E temos também as usinas greenfields, que são as usinas novas. Essa já inicia com uma caldeira, prevendo a biogeração. E isso gera um custo mais baixo, pois é obrigatório você ter uma caldeira de pelo menos 21 quilos na moenda. No balanço energético, já é previsto a moenda funcionar e a energia ser direcionada para a produção de energia elétrica. Então, vai haver um leilão agora e esperamos estar até 2015 com uma Itaipu, com 12.000 MW (megawatts). A necessidade do Brasil é uma ‘continha’ simples. A energia, no Brasil, não tem perdão. Se você for negligente e não for eficaz na sua administração, ela falta. Então, o que nós queremos para o país? Nós queremos desenvolvimento e distribuição de renda. E desenvolvimento, junto com a educação, origina distribuição de renda. A infra-estrutura atual do país permite que o Brasil cresça entre 3% e 4,5%. Faltam portos, falta estrada, falta energia, se crescer mais do que isso. No ano passado, vimos o Brasil crescer cerca de 5% e esperamos a mesma coisa para esse ano. Para cada 1% do PIB (Produto Interno Bruto), precisamos de 1,2% de energia. Ou seja, se o Brasil pretende crescer 5%, precisamos de cerca de 6% a mais de energia. Hoje, nós temos que aproveitar todas as energias possíveis, eólica, gás e nuclear, com todas as tecnologias de ponta. Não sei ainda o que faríamos com o lixo atômico, nós não temos essa resposta. Mas, em um país como a França, 80% da energia produzida é nuclear. A energia da biomassa-bagaço é a mais econômica, pois está em centros de alto-desenvolvimento, como Ribeirão, uma região de 4 milhões de habitantes, aproximadamente. E as usinas estão próximas, o que acarretaria poucos problemas de interligação e conexão. Então, nós temos que aproveitar essa energia dentro da matriz energética. O álcool, neste ano, como energia, já deve passar o consumo de gasolina. Se nós jogarmos a energia da usina como um todo, energia elétrica e energia do álcool, nós já estamos próximos de 25% da energia total da matriz energética.

Hélio – O governo consegue enxergar a questão dessa maneira?
Balbo – Enxerga. Ele está caminhando nessa linha e o governo está enxergando a biomassa e o álcool, trabalhando no sentido de fazer do álcool uma commodity. Nesse momento, nós estamos com oferta maior do que a demanda de álcool. Com o boom que aconteceu com a cana-de-açúcar, com o petróleo a 100, 110 dólares, então houve uma grande corrida por cana. Esse ano, devemos ter 40 novas usinas funcionando e 50 milhões de toneladas de cana aproximadamente, que corresponderiam a 4 bilhões de litros de álcool entrando no país. Então, estamos aguardando que os Estados Unidos, a Europa e a Ásia abram o mercado, para que haja equilíbrio. No mercado interno não vai álcool, em hipótese nenhuma. E o açúcar, no mercado externo, que impacta o álcool diretamente, está com preço muito baixo. Além do preço baixo, o real está muito valorizado. Então, você por um preço muito baixo lá fora o produto açúcar e transforma em reais aqui dentro.

Hélio – A São Francisco foi a primeira usina a chegar a 100% de mecanização de cana crua. Mas como surgiu esse projeto dos produtos orgânicos, para buscar valor agregado à cana? Até pouco tempo, ninguém falava disso...
Balbo – O idealizador da cana orgânica é o Leontino Balbo Júnior, que é o diretor comercial da Native. Ele, como agrônomo, com o Fernando, que é seu irmão, assumiram a diretoria agrícola da São Francisco e começaram a desenvolver uma agricultura auto-sustentada. Nós já tínhamos um trabalho de cinco anos dessa forma de agricultura, sem usar produtos químicos, com controle biológico, sem usar nenhum tipo de inseticida, sem usar herbicida, porque a palha ficava no campo. Daí, para irmos ao orgânico, houve o interesse de uma empresa americana. Vimos que, para transformar essa cultura nossa em orgânica, não faltava nada. Adaptamos a indústria e já temos esse projeto há 15 anos.

Hélio – O setor caminha para acabar a imagem das queimadas e dos cortadores de cana? É viável economicamente?
Balbo – Ele caminha nesse sentido. Nós não assinamos o protocolo (que prevê a proibição da queima da cana em SP até 2015). É viável e, mais do que tudo, trata-se de uma responsabilidade social. Hoje, o produto orgânico do Grupo Balbo e da Usina São Francisco é uma filosofia de trabalho. Nós temos programas de reflorestamento e proteção da fauna e flora, com espécies de animais catalogadas. Hoje, é uma obrigação social preocupar-se com o meio ambiente. Então, nós temos uma agricultura auto-sustentada, como parte do planejamento estratégico da nossa empresa. Estamos convencidos de que esse é o caminho. Vamos ganhar mercado com isso, não tenho dúvida nenhuma.

Hélio – Atualmente, pelo menos 95% do açúcar orgânico é exportado?
Balbo – Eu diria para você que 90% tem sido exportado para Europa, Ásia, Estados Unidos e países árabes. É um mercado que tem espaço para crescer. Tem um apelo muito forte na população. É claro que o produto tem um preço diferenciado, por sua forma de produção. Mas hoje a consciência ecológica, do bem-estar e do saudável, está chegando cada vez mais. A população quer viver mais e com qualidade de vida. Então, busca alimentos mais saudáveis. Entre eles, nós temos o açúcar, o café, o suco e a bolachinha, o cookies.

Hélio – O senhor estava nos dizendo que a consciência empresarial do setor está mudando. E lá fora, na sociedade em geral, as pessoas percebem isso com clareza? E a famosa palavra “usineiro”?
Balbo – Atualmente, lá fora, existe um interesse econômico. Quem têm energia, têm poder. E o interesse deles é bloquear o nosso produto álcool. Porque a gente só ouve generalizações. Não ouvimos coisas focadas. Todos os setores da economia têm problemas, tá certo? Havia problemas? Havia. Mas ainda há problemas a serem resolvidos. Mas o caminho para você conquistar o mercado externo é ter um produto realmente limpo como ele é, sendo cultivado e tratado com agricultura auto-sustentável e saudável. Você não precisa ter cana orgânica, você pode ter a cana verde, sem queimar. Pode dar ao seu trabalhador o tratamento que ele merece. A razão de uma empresa, no seu final, é o social, é gerar emprego, com desenvolvimento e qualidade de vida. Que sentido faz ter uma empresa, para você usufruir dela? Não pode, não faz sentido. A própria opinião pública vai fazer o papel de excluir dos setores da economia aqueles que não fazem o bem-estar social, não esquecendo a empresa com sua função de gerar lucro.

Hélio – O senhor dizia que a grande luta é transformar o álcool em commoditty. Como está essa relação lá fora? Há uma barreira muito grande? Os Estados Unidos, hoje, tem uma produção de álcool muito maior que a brasileira. Há esse choque de interesses?

Balbo – Hoje, a Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) está fazendo um trabalho muito bem feito no exterior, colocando escritório e formadores de opinião. Hoje estamos vendendo aquilo que nós temos, que está mal-vendido. O setor sucroalcooleiro não é muito de divulgar o que faz. E as coisas ruins têm aparecido com destaque na imprensa. E vem com destaque de lá fora para cá, também. Nós notamos que, quando aparece algo, é coisa “armada e orquestrada” contra o álcool. Quando eu digo que o álcool vai vender mais do que a gasolina, estou ‘pegando’ em alguém, a Petrobras. Para onde vai a gasolina que ela está deixando de pôr nos carros? Será que ela tem tanto interesse assim, no álcool, nesse momento?

Hélio – E o projeto do alcoolduto? [a Petrobras anunciou um duto desses, em parceria com grupo japonês, para interligar Goiás a São Paulo] O setor abandonou o projeto da Petrobras ?

Balbo - O setor não abandonou, mas pegou como opção fazer, ele próprio, um alcoolduto. Nós achamos que seria melhor fazermos o alcoolduto e ter a administração dele, conforme achássemos mais adequado. Quando eu digo que vamos vender mais álcool do que gasolina, tem que estar impactando a Petrobras. Eu estou criando um problema para o produto dela e acho isso a coisa mais normal que existe. Uma empresa como a Petrobras preocupada em sobrar gasolina. No meu ponto de vista, ela deveria aditivar a gasolina com álcool e colocar em algum país. O problema é que o álcool ainda não foi transformado em commodity e não temos esse espaço. Mas estamos tentando mudar lá fora essa imagem. E não é só pela mídia não.

Hélio – Como o senhor se define? Jairo Balbo por Jairo Balbo?

Balbo – Simples. Uma pessoa simples.

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