Economia
Sabado, 5 de Abril 2008 - 17h56
APOSTA O empresário José Wilson Ricciardi mostra o óleo retirado da polpa da macaúba - alternativa à soja na produção de biodiesel
O empresário José Wilson Ricciardi, de Ribeirão Preto, desenvolve há três anos um plano de negócio que prevê o processamento da macaúba como matriz energética, em função da provável boa relação custo-benefício como alternativa à alta da soja. A decisão do governo federal em aumentar de 2% para 3% a quantidade de biodiesel misturado ao diesel, a partir de julho, pode favorecer a iniciativa.
Hoje, para atender essa cota de 2% de biodiesel no diesel tradicional são necessários 800 milhões de litros do combustível alternativo, que são adicionados aos 47 bilhões de diesel produzidos anualmente. Com a elevação proposta, a demanda deve subir para 1,2 bilhão de litros de biodiesel. Porém, os empresários do setor estão preocupados com a tendência de encarecimento do biodiesel e, conseqüentemente, da mistura diesel/biodiesel.
Segundo Ricciardi, a macaúba é uma espécie de árvore (palmácea), de cachos grandes (com até 500 frutos, encontrada em abundância em matas desde o México até o Paraguai, passando pelas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil.
Ricciardi comentou que a macaúba produz de 4 mil a 5 mil quilos de óleo por hectare. Ou seja, dez vezes mais que a soja, que fornece apenas 400 quilos de óleo em área de igual tamanho.
Outra vantagem apontada pelo estudo de Ricciardi atesta que o custo do litro do biodiesel a partir do óleo da macaúba ficaria entre R$ 0,70 e R$ 1,10. Dependendo do processo de industrialização e da logística, o valor seria, segundo ele, apenas um terço do preço do “combustível verde” obtido a partir do óleo de soja, cujo litro está cotado hoje entre R$ 1,90. Porém, perspectivas nada animadoras prevêem elevação do preço para R$ 2,50.
O óleo de soja representa atualmente cerca de 75% da produção nacional de óleo vegetal. Segundo Ricciardi, quando o “balanço energético” das empresas que se instalaram no Brasil para produzir biodiesel direcionou-se a partir desse cultivo, cada tonelada de óleo de soja
“A demanda internacional pela proteína da soja (a torta, fonte alta de proteína, atualmente vendida para a Europa) e com a entrada da China nesse mercado, hoje se fala em R$ 2,3 mil a R$ 2,5 mil (US$ 1.037 a US$ 1.150) por tonelada de óleo de soja. Então, estamos sem condições de usar o óleo de soja como matéria-prima para vender biodiesel”, afirmou ele.
No curto e médio prazo, essas empresas deverão migrar da soja para alguma palmácea, na avaliação do empresário. Além de citar a elevação do preço da soja, Ricciardi defendeu a utilização da macaúba, citando a suposta inviabilidade de outras oleaginosas pesquisadas para a produção do biodiesel.
Ele lembrou que a palmácea que resulta no óleo de dendê (encontrada apenas no Norte do Brasil) exige um índice pluviométrico (volume de chuvas) muito alto, para resultar em produtividade adequada. “Transferir a palma do Norte para cá e fazer irrigação seria inviável”, rechaçou.
Questionado sobre o pinhão manso (que será matéria-prima para produzir biodiesel em usina em construção no município de Porangatu, no Norte de Goiás), Ricciardi afirmou que essa espécie de arbusto tem uma produtividade “muito interessante” mas que o mesmo só serve para biodiesel.
Óleo também pode ser utilizado em cosméticos
“O pinhão manso é impróprio para consumo humano e animal, pois é altamente tóxico. Estive em Dourados (MS) e vi que sua manipulação é complicada, com uso de máscara e luva. No caso da macaúba, além do óleo da polpa servir para biodiesel, o óleo de sua castanha também pode ser usada na indústria de cosméticos, já que possui beta-caroteno”, compara Ricciardi
Embora considere que a mamona “excelente” para a produção de biodiesel, o engenheiro fez ressalvas sobre as dificuldades do plantio desse cultivo em terras das regiões Sul e Sudeste, entre outras considerações. “A mamona está muito voltada para um ‘processo social’ mais definido. Fora que resulta num óleo muito viscoso, com propriedade química muito ruim”, sentenciou.
O plano de Ricciadi para viabilizar a implantação de uma usina de biodiesel a partir do cultivo da macaúba é encontrar parceiros dispostos a investir de R$ 35 milhões a 40 milhões (incluindo a terra) para viabilizar o processamento do óleo necessário ao projeto.
As opções do empresário são os Estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás (Centro-Oeste). Ele não descarta o investimento no interior do Estado de São Paulo, possivelmente em Ribeirão Preto ou em alguma outra cidade da região.