Vicente Golfeto
Segunda-Feira, 7 de Abril 2008 - 22h29 Fiódor Dostoiévski diz que: “a maior desgraça do homem é a lucidez”. Lucidez é palavra que vem do latim – lux, lucis – lembrando de luz, clareza mental. A conseqüência natural, o corolário do teorema portanto, seria que a estupidez – como antítese – é a matéria prima com que se faz saúde mental, bem-estar. Em outras palavras: a felicidade é produto da ignorância.
Com lucidez faz-se angústia. E com angústia se faz depressão, considerada por Freud como sendo – nada mais, nada menos – do que “narcisismo contrariado”. Diz a mitologia grega que Narciso, olhando-se na água e vendo seu rosto refletido, apaixonou-se por si mesmo, pela sua própria imagem. Ficou entorpecido por sua beleza.
Narciso é variante de narco, do grego, que quer dizer torpor. É daí que vem narcótico. Narciso ficou narcotizado pela própria estampa.
A estupidez é o insumo da felicidade. Aliás, nos termos exatos da frase acima de Fiódor Dostoiévski, que foi fonte inspiradora de quase toda obra de Sigmund Freud. Estamos nos referindo à sua monumental Psicanálise.
A obtusidade mental faz o homem viver bem na Terra. Santo Hilário – marcado pelo seu constante bom humor e um dos doutores da Igreja – nos diz que “no dia do juízo, a ignorância dos homens será o principal sacramento da salvação”.
Hilariante que dizer com propensão ao riso. Deus vai nos olhar com profunda misericórdia e nos salvará, possivelmente dizendo: “era muito ignorante. Não tem condições de ser condenado”.
Não estamos fazendo apologia da ignorância. Mas a verdade é que no próprio texto sagrado – na Bíblia – nós lemos que “quem aumenta o seu conhecimento aumenta seu sofrimento”.
Sendo ignorantes, ganhamos a Terra. Estamos apoiados em gênios como Dostoiévski e Sigmund Freud. E teremos chances de também ganhar o céu. Estamos apoiados em Santo Hilário, um dos mais fascinantes doutores da Igreja. O que queremos mais?