Jornal A CIDADE

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Hamilton de Andrade Lemos

Segunda-Feira, 7 de Abril 2008 - 22h29

Isabella contra a dengue


Pois é! O povo gosta é de tragédia. Principalmente quando ela não é uma tragédia somente, digamos, trágica. É preciso que tenha componentes como a sordidez, o mistério e o drama, para causar comoção.
Se não for desta forma, o assunto cansa e logo se desgasta. Cuido aqui de recordar um deles: a dengue no Rio de Janeiro. Quantas crianças morreram deste o início da epidemia, mesmo? Perto de 50, se ainda sei fazer contas. E a cada semana, somam-se novas mortes, com preferência pelos pequenos.
E quem é o responsável por estas mortes? Seus pais? Os vizinhos que criam mosquitos? Os governantes, pela falta de governança com que lidam com a saúde pública? Por certo houve crime. E assim havendo, há o criminoso.
Mas ninguém foi preso ou será judicialmente responsabilizado por qualquer destas mortes. Ainda mais agora, quando as notícias sobre o tema quase desapareceram dos noticiários. Os espaços são todos de Isabella. A mídia está saturada com o caso Isabella.
Não estou, aqui, minimizando a relevância do caso. Estou apenas dizendo que a mídia o amplia, movida pelo interesse na audiência. Afinal, há milhões de brasileiros ávidos pelos detalhes do crime, como a possível participação do próprio pai. E brasileiro gosta quando os podres do vizinho são escancarados.
Enquanto isso, outros absurdos vão perdendo impacto. Quem ainda fala do garoto baleado e morto pelo segurança? Como é mesmo o nome dele? Ah, e teve também o frentista atropelado pelo mauricinho. O que aconteceu com ele?
Daqui a pouco, assim que o assunto cansar ou vier outro novo, matarão pela segunda vez Isabella, como fizeram com todos os outros.

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