Jornal A CIDADE

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Vicente Golfeto

Terça-Feira, 8 de Abril 2008 - 22h26

Conforto e bem-estar


Os norte-americanos dizem que dura mais uma amizade baseada em negócio do que um negócio baseado em amizade. É que os melhores amigos daquele povo sempre foram os seus parceiros comerciais. Herdeiros do egoísmo esclarecido, do pragmatismo de Roma os Estados Unidos conseguiram fazer um império a partir de um país. Roma, ao contrário, foi um império a partir de uma cidade.
Passando da sociedade de produção para a sociedade de demanda, os norte-americanos construíram o consumismo. O consumo das famílias é o conforto das pessoas. Mas, produzindo o conforto, praticamente estão sepultando o bem-estar. O conforto é centrípeto, isto é, de fora para dentro. Nasce do mercado, do caminho que se faz da necessidade rumo ao luxo. Já o bem-estar é centrífugo, isto é, de dentro para fora. Ele nasce do psiquismo.
Quanto mais conforto, menos bem-estar. Mas a recíproca igualmente é verdadeira. Quanto mais bem-estar, menos conforto. É a história do homem feliz. Pesquisando muito sobre a existência de um homem feliz – diz a lenda árabe – um sábio acabou identificando-o em quem não tinha sequer camisa para vestir. “O filho do Homem não tem onde reclinar sua cabeça”, diz o próprio Jesus Cristo.
Já falamos que mercado é palavra que tem a mesma raiz de mercúrio. Mercúrio foi o deus dos comerciantes e dos ladrões. Isto na mitologia romana. Mas mercúrio – através do filamento do termômetro – nos mostra as oscilações baseadas tanto na renda quanto no psiquismo dos consumidores. Não há mercado sem mercúrio da mesma maneira que não existe transação econômica sem incerteza. E é exatamente esta incerteza o útero de onde nascem as grandes psicoses e neuroses que aumentam na medida em que o mercado se impõe e, assim, estabelece mais conforto.
Foi possivelmente por isto que Arthur Schoppenhauer disse que “riqueza é como água salgada. Quanto mais bebemos, mais queremos beber.”

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