Classe A
Sabado, 12 de Abril 2008 - 14h39
Nascida em Pratápolis (MG) e graduada em Letras pela PUC de Belo Horizonte, onde o curso era ministrado em francês, italiano e em espanhol, Ely Vieitez Lisboa radicou-se aos 13 anos de idade em Ribeirão Preto. Apreciadora do ritmo dinâmico dos paulistas, autora de 11 livros, ela revela, nesta entrevista, porque acha que a Internet é uma via de mão dupla. Revela, também, que prefere escrever primeiro no papel, para reler o texto por até quinze vezes antes de colocá-lo no computador. Conta detalhes sobre seu encontro com Clarice Lispector e critica boa parte da produção cinematográfica e de televisão a partir de escritores tradicionais como Machado de Assis.
Régis Martins – Professora, a senhora é mineira?
Ely Vieitez - Sim, de Pratápolis. Vim para cá em 1948, mas sou cidadã ribeirão-pretana, por título e por opção.
Régis – Bom, mas nos conte essa história. Como foi a vinda de Pratápolis para cá?
Ely - Não há nada a falar sobre a infância em Pratápolis. Inclusive, detesto falar sobre o passado, pois sou muito ‘presentista’. Mas eu passei até os sete, oito anos em Minas, em Pratápolis, Paraíso (São Sebastião do Paraíso-MG), Belo Horizonte. E, finalmente, aos 12, 13 anos, Ribeirão Preto. E aqui fiquei até hoje. Em 1996, recebi o título de cidadã ribeirão-pretana. Então, toda a adolescência, essa época importante, o estudo, foi em Ribeirão Preto. Eu me identifico muito mais com Ribeirão. Além disso, gosto muito de uma frase de Machado de Assis, que diz assim “ponha uma laje sobre seu passado e escreva: descanse em paz”. Eu sou muito ‘presentista’, mas tenho procurado entender os saudosistas. Sempre faço a pergunta: “se você foi feliz no passado, porque relembrá-lo se ele não existe mais?” E, se você foi infeliz, seria sadismo lembrar dele. Então, eu não entendo porque relembrar o passado. Mas os historiadores acham que ele é importante para entender o futuro. Se bem que alguns amigos meus, mineiros, já me disseram que sou a menos mineira dos amigos deles, porque me identifiquei mais com São Paulo, com esse ritmo dinâmico. Isso não quer dizer que os mineiros não trabalhem muito, mas eu me identifico muito mais com Ribeirão Preto, mesmo.
Régis – Mas e a formação literária da senhora? Teve relação com Minas?
Ely - Acho que tem mais a ver com São Paulo. Ninguém entende esses desígnos. Quando foi para fazer a faculdade, minha turma toda foi para São Paulo. E eu fui para Belo Horizonte, onde fiz três anos de faculdade. Depois, um ano na França. Essa época também influenciou bastante, pois é na Faculdade de Letras que se toma contato com a Literatura de maneira mais profunda. De certa maneira, por acaso ou não, tive um retorno para Minas, para fazer a faculdade. A PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Belo Horizonte era a única, na época, em que as aulas eram dadas nas próprias línguas. Nessa época, em que em Letras era obrigatório estudar francês, italiano e espanhol, as aulas eram dadas em francês, italiano e espanhol. Em São Paulo, não. Eram dadas em português. E uma das razões de eu escolher Belo Horizonte, Minas, foi essa. E uma alguma melancolia também, de Minas, pode ser.
Régis – Freud explica...
Ely - Freud explica. Porque Belo Horizonte sempre me atraiu muito, é uma cidade mítica. Quando eu estava lá, em 1956, foi publicado “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo. Eu li as primeiras edições, que eram em sete volumes. Agora, estão saindo em quatro. A Folha (o jornal Folha de São Paulo) parece-me que está publicando “Um Certo Capitão Rodrigo”. Eu acho um crime, não sei como a família está permitindo isso, porque esse é apenas um trecho de uma grande obra, magnífica, que é “O Tempo e o Vento”. E eles (o jornal) colocam o livro como se fosse um romance estanque. Isso é um absurdo.
Régis – Nós sempre vemos que o escritor, o poeta, sempre faz uma outra faculdade, como o Direito. A senhora não, pois logo quis cursar Letras. Por quê?
Ely – Aos 10, 12 anos, em meu aniversário, meu pai me perguntou o que eu queria. E eu pedi a coleção completa de vários escritores, “pois eu vou ser professora de literatura brasileira”. Sempre gostei muito de ler, começando pelos quadrinhos e passando pelos primeiros romances românticos. Finalmente, comecei a gostar mesmo de ler na adolescência, aqui em Ribeirão Preto. Eu tinha uma professora, que não vou dizer o nome, que não era muito boa professora, mas que me dava muitos livros para ler. Uma vez, ela me disse “você tem um ‘jeitão’ de colégio de freiras e eu vou curar você desse ranço”. E me deu a obra completa do Aluísio de Azevedo (romancista que escreveu obras como O Cortiço, O Mulato e Casa de Pensão) para eu ler. Eu precisei confessar umas dez vezes, enquanto fazia o trabalho, pois era uma leitura muito pesada. Mas, para mim, foi ótimo. Ler a obra completa do Aluísio me influenciou muito. Foi um caminho torto, assim, pelas linhas tortas.
Régis – E o interesse pelo Magistério? Por que dar aulas?
Ely – Eu gosto tanto de aulas, eu amo tanto o magistério. Outro dia, encontrei um ex-aluno que já está na terceira idade, um médico, e ele me disse “pelo amor de Deus, dona Ely, a senhora ainda está dando aula?”. Eu disse que sim. E ele: “larga disso, deixa disso, isso é um horror”. Pelo contrário, eu não consigo entender quando parar. Já mandei uns e-mails “lá pra’ cima”, sabe? Pedindo que me avisem a hora de parar, realmente, pois faz 22 anos que estou aposentada e continuo dando aula. Acho magnífico pegar uma turma de adolescentes que não sabe escrever, que não sabe falar, e deixá-los escrevendo bem, falando mais ou menos bem, até o final do ano. Agora, se valoriza muito a redação e os meninos que entrar em cursos como Jornalismo ou Medicina precisam tirar de 8 a 10 na redação. E é muito bom pegar um garoto que escreve mal e deixá-lo escrevendo bem, em dezembro. É uma coisa gratificante e muito agradável. O problema é muito simples: quem lê escreve. Só que a juventude hoje lê muito pouco, então escrevem mal, pois tem pouco vocabulário e dificuldade de expressar as idéias. Às vezes, eles até têm idéias, mas têm dificuldades de colocá-las no papel. Então, o problema é ler, interpretar textos. É o que se faz num laboratório de redação.
Régis – E como funciona esse laboratório de redação da senhora?
Ely – Eu não vou fazer propaganda do meu laboratório de redação (risos), que é muito pequeno. É muito comum o aluno chegar e me dizer “a senhora foi professora do meu pai”. E eu avalio o menino por ele mesmo e não pelo outro, pois são turmas muito pequenas. Mas é um trabalho muito agradável.
Régis – A senhora nos disse que a juventude hoje lê muito pouco. Mas a senhora acompanhou gerações. Qual é a explicação para esse desinteresse pela leitura no momento atual?
Ely – Primeiro é atração da imagem, da televisão, da Internet. A Internet é um problema sério, pois é uma mão de via dupla. Ao mesmo tempo que é boa porque eles se comunicam, mas fazem isso pelo “internetês”. Então, já discuti várias vezes isso no grupo. Se o menino escreve bem, não há problema algum que ele escreva na linguagem da Internet. Mas se ele escreve mal, piora cada vez mais, na grafia.
Euclides Oliveira– Há um excesso de abreviaturas na Internet, também.
Ely - Isso empobrece profundamente. E ele acaba escrevendo “axo”, com “x”, em vez de acho. É uma tendência que não é novidade. Havia um lingüísta que queria transformar a Língua Portuguesa em língua pela fonética, mas isso não foi aceito. E os jovens escrevem do jeito que falam, que pronunciam a palavra. Isso é problemático. Não estou dizendo que a Internet é um mal. Mas é preciso ter cuidado e equilíbrio com seu uso.
Régis – Antes de “Os Lusíadas”, a norma culta ensinava “geolho”, mas o povo português falava “joelho”. Então Camões optou pela fala popular, que acabou tornando-se regra geral. É uma polêmica essa questão da língua falada, da norma culta, não é?
Ely – A melhor definição que já vi foi de Monteiro Lobato. Ele dizia que “a linguagem falada é livre, de camisa aberta e de pé no chão”. E que a linguagem escrita era “de fraque e cartola”. Então, a linguagem falada não admite muitas regras e dá uma liberdade total. A linguagem escrita tem de seguir certas regras, quando é escrito um texto sério, não na Internet. O problema está justamente nessa informalidade da língua, o que é muito bonito na linguagem falada, que é dinâmica, rica e bela. As expressões populares são muito interessantes. Até a gíria, que é proibitiva num texto sério de vestibular, por exemplo, é até interessante quando falada, pois é muito expressiva.
Régis – O Modernismo não nasceu dessa proposta de trazer a língua das ruas?
Ely – Sim. O Modernismo foi justamente contra toda formalidade que havia na literatura antiga. Era um desejo nascente de liberdade. Foi muito bom isso que aconteceu. Até o Modernismo, certas palavras eram consideradas apóeticas. De repente, um Manoel Bandeira coloca um verso assim: “raia, a mênstrua aurora”. Foi o maior escândalo, não é? Como é que podia por um adjetivo relacionado com a menstruação? E, no entanto, eles quer dizer daquelas nuances de vermelho, que lembra sangue, que lembra claro. E eles faziam o poema tipo “poema-piada”, como por exemplo o gato que faz xixi, a andorinha, o porquinho da Índia...e isso era considerado totalmente apoético. A partir do Modernismo, nada é considerado apoético, desde que seja lírico e tenha ritmo. Pois sem ritmo não há realmente um poema. Até hoje é assim: se você quiser fazer um poema, não é preciso usar rimas, mas o ritmo tem que ser preservado. E a linguagem também tinha que ser bem conotativa, porque um poema em linguagem denotativa é um artigo de jornal. Realmente, não tem muito valor. Ou, tem valor apenas para transmitir uma mensagem, mas não como linguagem literária.
Régis – Uma vez ouvi a senhora dizer que o poema é mais importante que a prosa. É isso mesmo ou entendi errado?
Ely – Mais importante? Não. É diferente. Bom, comecemos com a problemática de fundo e forma. O fundo, que é o conteúdo, é o mesmo de 3.000, de 5.000 anos atrás. Se você olhar toda a literatura do século 12, do século 13, não mudou muito o fundo. Do que se fala a literatura, a vida toda? Do amor, das paixões. Você pega aí grandes obras do século 17, que falam das paixões. Mas o conteúdo não muda muito. Mas a maneira, o estilo do autor, que muda completamente. Caiu em Brasília, num vestibular, certa vez, uma definição de amor de Drummond (Carlos Drummond de Andrade, que morreu em 1987) e uma definição de amor do Camões. E eles pediam para que os vestibulandos falassem também sobre a própria definição de amor. O aluno se negou dizendo que não ia contar “coisas dele” (risos). Foi muito engraçado. Mas se você pega poemas de amor da lírica de Camões, não há mais nada para se escrever, originalmente. O amor, sob o enfoque da lírica de Camões, é perfeito. O que muda, um pouco, é o estilo. E só. Não se pode dizer que a prosa é mais importante ou menos importante. São gêneros diferentes. Se bem que José de Alencar tem o famoso “Iracema”, que é chamado “Romance em Prosa e Verso”, pois na realidade tem cadência como se fosse um poema. Se você lê o começo dele “verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba”, tem o ritmo de um poema. O problema da diferença de gêneros não é assim algo matemático, mas há diferenças, como a discussão enorme entre conto e crônica. É cheio de nuances, de pequenas diferenças, mas não são diferenças muito claras.
Régis – O escritor que escrevia à máquina ou com a pena escreve diferente daquele que escreve hoje no computador?
Ely – Você está querendo saber se ele muda o conteúdo?
Régis – Sim.
Ely - O conteúdo, não. Eu conheço escritores que ainda gostam de escrever primeiro à mão, depois passam para o computador. Só ficou mais fácil e mais prático, para inserir algum trecho que você mudou. Mas, no conteúdo, não. Agora, há pessoas que sentem dificuldade de criar diretamente no computador, como há quem goste de fazer isso. Ainda gosto de escrever à mão primeiro, para poder ler o texto dez, quinze vezes, para revê-lo. Mas acho difícil esse seu embate com a idéia ir direto para o computador, é um pouco frio, não sei. O lápis e a caneta ainda despertam uma certa atração, há uma intimidade maior do que escrever diretamente no computador. Mas essa é uma maneira pessoal de ver.
Euclides – Como foi a adaptação da senhora ao computador?
Ely - Por sinal, escrevi um artigo sobre o “conturbado caso de amor” que tive com o computador. Fui muito remitente a não usá-lo, até cinco, seis anos atrás. Não sou uma exímia usuária, mexo só com o essencial. Mas foi muito difícil, muito trágico. Hoje, vejo essa meninada usando o computador com a mesma facilidade de quem respira, isso é uma coisa notável, fantástica. A máquina ainda me dá um pouco de medo. De vez em quando, o computador faz algumas coisas que parece que ele tem “inteligência artificial”, ele age por conta própria, ele trava, entende? A gente fica com raiva, arranca no tranco, tira, desliga....nossa! Eu menciono um caso verídico, no meu texto. Uma vez, há três anos, eu fiz tanta tolice no computador, que apareceu um Einstein barrigudinho, me dizendo “o que é que você quer fazer, afinal de contas?”. Quer dizer, era um absurdo o que eu estava pedindo para o computador. E acho que ele dizia “essa mulher é louca, ela não entende”. Meu marido já me explicou, várias vezes, que não se pode dar vários comandos (risos). Aliás, há uma crônica muito interessante do Mário Prata em que uma menina desce correndo e diz “papai, que maravilha, encontrei uma coisa formidável, que não é aborrecida, nem muito chata como o computador, porque ela é rápida”. Era uma máquina de escrever Remington. A menina punha o papel e batia. O computador depende de uma série de preâmbulos. Você liga, espera, tem que procurar banda larga...tem todo um ritual. Agora, atualmente eu não viveria sem o computador. Inclusive para guardar os textos. Esse negócio de guardar texto de 20, 30 anos atrás em pastas, em cadernos, em rascunhos, é um terror. Hoje, é maravilhoso tê-los no computador, poder acessá-los na hora que quiser. Isso é magnífico.
Régis - E quando se fala que os livros deixarão de existir, o que a senhora pensa? Hoje se pode fazer um download, “baixar “ um livro inteiro pela Internet...
Ely - Essa é uma polêmica meio infrutífera, uma celeuma bem fraca. Ler um romance no computador é um pesadelo. Cansa, dói (a visão). Agora, um romance, um livro de contos, você carrega, deita numa rede, na sua cama, leva para qualquer lugar. É uma intimidade muito maior com o livro. Então, o livro nunca vai desaparecer.
Régis - Quantos livros a senhora escreveu?
Ely – “Cartas da Cassandra” é o décimo primeiro, que saiu em 2003. É o único romance. Tenho outros quatro, de contos, tem um “trágico”, que é livro infantil, porque escrever para crianças foi a coisa mais difícil que fiz na minha vida. Escrevi um só e saiu muito trágico. Tanto que a editora, quando publicou, me contou que a moça que digitava, ela digitava e chorava, chorava (risos). Era uma história com animais e havia muitas mortes. Tem os dois ensaios e os três livros de poema, também. Hoje, alguém me telefonou perguntando se eu tinha algum livro novo. Eu disse que agora escrevo só para os jornais. Não sei se o local que eu vivo não é muito propício para trabalhar muito, pois eu vivo um pouco no paraíso agora, sabe, com muita grama, piscina, silêncio, céu azul, cachorro...então, ao invés de pensar em escrever um texto, prefiro ir para a rede ler um livro. É meio problemático.