Jornal A CIDADE

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Júlio Chiavenato

Sabado, 12 de Abril 2008 - 14h50

Pedro e Inês


Um tipo gago, grosso, comia com as mãos e arrotava. Vivia entre malandrins, cavalos e cães. Príncipe, mas epilético. Ela, branca, lirial. Veio na corte de uma princesa. Pura. Lia poesia beatificada e cuidava de alegar a princesa amiga, destinada a ser rainha.
O príncipe gago casou com a princesa. Ele português, ela de Espanha. Bodas arranjadas pela realeza. Não deu certo. Porque Pedro, chamado o Cru, gajo gaganho, glutão e *odão (não é culpa minha o tabuísmo que não ouso por o f à sua frente, está nas mais abalizadas penas, tanto de Rui de Pina como de Fernão Lopes), desprezou a bela dona Constança, a esposa prometida e dada.
Fez os filhos de lei, mas logo se engraçou com a dama de companhia, já adivinharam, a Inês de Castro, aquela que o Camões disse que depois de morta foi rainha. Fez filhos nela também, apaixonou-se de paixão desmedida. Mudou tudo nele: de glutão e safado, passou a terno amante. Tudo bem, não perdeu a mania de ser o Cru, e vez por outra, para fazer justiça descia a mão pesada num cortesão mais sacana.
Até que um dia, abandonou dona Constança, que morreu. O rei seu pai fez de tudo para impedir que ele se casasse com Inês. Casaram-se em segredo, ele disse depois, e mentia. Um dia, todos sabem e vocês também, os nobres invadiram a casa de Inês e mataram-na a punhaladas. Passou o tempo e Pedro chefiou a rebelião e foi rei.
Mandou tirar Inês da cova, vestiu-a majestosamente, levou-a em procissão até Lisboa, o povo a chorar atrás do cadáver, e sentou-a no trono. Obrigou aos nobres beijar as mãos cadavéricas. Coroou-a rainha. Um tempo, ele também morreu. Estou cá, bestificado pela eloqüência do túmulo dos dois. Nem Shakespeare bolaria uma história dessas, pá!

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