Caderno C
Terça-Feira, 15 de Abril 2008 - 23h24
VETERANO Grupo de jazz foi criado nos anos 60 em São Paulo
Em 1993, a Traditional Jazz Band participou de um projeto no qual se apresentava em estações ferroviárias do Estado. Num vagão-palco, o grupo surpreendia o público que ficava na plataforma à espera do próximo trem e, de quebra, recuperava o clima romântico e errante do estilo.
Mas o projeto durou pouco, e, em seguida, os trens foram desaparecendo do território paulista. Ao contrário da Traditional Jazz Band que sobreviveu aos tempos modernos e comemora 43 anos de vida. Uma união que dura mais que muitos casamentos.
- É claro que a gente quebra o pau também, mas quando subimos no palco, viramos irmãozinhos e esquecemos de tudo, garante Austin Roberts, trompetista e sócio-fundador do grupo.
New Orleans
Da formação original, ficaram ainda Eduardo “Dudu” Bugni, tocador de banjo e violão, e o impagável Cidão Lima, baterista e mestre “sem cerimônias” da banda. Todos chegando perto da casa dos 70 anos.
- O mais garotinho da banda tem 50 anos, brinca Austin, filho de um norte-americano de Detroit que teve influência direta em seu gosto musical.
A Traditional Jazz Band foi criada no início dos anos 60 por estudantes do Mackenzie, em São Paulo, que começaram a se apresentar em festas de aniversário, teatros de faculdades e, de repente, estavam gravando o primeiro LP, em 1966.
Desde então não pararam mais e já contabilizam 21 álbuns entre vinis e CDs. Além disso, o grupo realizou centenas de shows no Brasil e no exterior, principalmente em festivais da Califórnia, Washington, Boston e principalmente New Orleans, berço do jazz.
- Nos apresentamos lá cinco vezes e num desses festivais fomos escolhidos a melhor banda estrangeira, garante.
A banda se apresentou em New Orleans antes do furacão Katrina destruir boa parte da cidade em 2005.
- Aquilo foi uma tristeza. E dificilmente New Orleans vai voltar a ser o que já foi um dia. Na época em que a gente se apresentou lá, estava bem decadente, com assaltos e muita droga, argumenta.
Aquarela do Brasil
O curioso é que nestas apresentações em solo estrangeiro, o grupo de jazz evoca um repertório brasileiro para agradar a platéia gringa.
- Eles sempre nos pedem “Aquarela do Brasil” e principalmente bossa nova. Tom Jobim é Deus pra eles, conta Austin, que tem dupla cidadania e dois filhos que vivem nos Estados Unidos.
O trompetista diz que a exemplo do que acontece com o samba de raiz no Brasil, o jazz não é muito popular entre os norte-americanos.
- Mas a vantagem é que lá, eles criam museu pra tudo. O museu do Louis Armstrong na Lousianna é fantástico, comenta.
Austin tem verdadeira paixão pela música de Armstrong. Ainda garoto, chegou a assistir três shows do mestre quando o músico esteve no Brasil na década de 50. E aproveitava o domínio do inglês para descobrir os segredos do trompete.
- Eu me enturmava com os músicos das bandas e eles me contavam todos os truques do instrumento, recorda.
Segurança
Apesar de ter aprendido muita coisa sozinho, Austin estudou música e aprendeu a ler partituras. Mesmo assim, reconhece seus limites e não gosta de bancar o virtuose.
- Não toco jazz moderno porque não tenho tanta técnica assim. Gosto de ter os pés no chão e tocar com segurança, explica.
O repertório da banda vai desde o dixieland do início do século 20 até composições de mestres do suingue como Duke Ellington, Fats Waller e Count Basie.
Mas o trompetista diz que o grupo não é tão purista assim e inclui até uma guitarra elétrica em algumas músicas e não dispensa o bom e velho blues no set list. A Traditional Jazz Band também tem composições próprias, incluindo aí trilhas para os filmes “Eros”, “Eu”, “Amor Estranho Amor” e “Forever”, do cineasta já falecido Walter Hugo Khouri.
- Não paramos no tempo e fomos avançando. Temos mais de 500 músicas no repertório, afirma.
Dengue
Entre elas, até mesmo um jingle sobre o combate ao mosquito da dengue lançado em 2002 com título “Pium pium o Mosquito da Dengue”, distribuído em várias instituições. A letra, bem-humorada, fala sobre a reprodução do mosquito, sintomas e prevenção da doença, com direito a um videoclip sobre o tema.
Austin mesmo não ouve apenas jazz. Além de MPB, escuta muita ópera até mesmo por questões profissionais.
- Estes cantores têm uma técnica de respiração que me ensina muito. Utilizo no trompete para que o som saia redondo, explica.
Apesar da paixão absoluta pelo jazz e de realizar uma média de 110 shows por ano, Austin, a exemplo dos companheiros de grupo, não é músico profissional e sim advogado. Curiosamente, acredita que esta seja uma das receitas da longevidade da Traditional Jazz Band.
- Se vivesse de música, teria que me dedicar a outros estilos pra poder pagar as contas. Hoje, graças a nossos outros empregos, o jazz é prioridade, conclui.
Serviço
Traditional Jazz Band
No Projeto Grandes Bandas
Hoje às 21h no Auditório do Sesc-RP
Ingressos a R$ 8 (inteira), R$ 4 (usuário matriculado, estudante e idoso) e R$ 2 (trabalhador no comércio e serviços matriculado).
Inf.: (16) 3977-4477