Jornal A CIDADE

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Júlio Chiavenato

Terça-Feira, 15 de Abril 2008 - 23h52

Descons(c)erto


De Lisboa

Entender o Brasil, de repente, é de cortar o coração. No metrô de Lisboa, a moça brasileira pergunta ao rapaz: “O que é concerto? Minha patroa disse que ia ao concerto.” O rapaz, também brasileiro, explicou: “Concerto? No Brasil é ópera.”
O casal, de uns 20 anos, trabalha em Portugal. São o tipo de excluídos que o Brasil expulsa, para serem explorados na Europa e outras ásias. Imaginem o quanto esses jovens são abusados e humilhados, pois não sabem sequer o que é um concerto. É de cortar o coração ter a revelação de nossa miséria social, que denuncia a miséria humana, num metrô de Lisboa (que os lisboetas dizem métro).
A vontade é de abraçar os jovens e levá-los a um concerto. Mas qual concerto?, se eles vivem a vida como um concerto desafinado, em plena alegria, pois estão em Portugal, iludidos porque ganham em euro. Estão aqui, mas não sabem. São tão humilhados no Brasil que se tornaram cegos para a beleza apurada, cristalina, harmônica de Lisboa. Jamais compreenderão a magia da luz na igreja de São Roque ou entenderão o que dizem secretamente as pedras dos Jeronimos. Como, talvez, milhares de africanos que colorem o Rossio no domingo. Eles também dizem muito aos brasileiros: não temos negros pretos. O petrume dos negros da Guiné Bissau, de Angola e outras áfricas, nos dá um susto. Gritam a África à flor da pele. Ao contrário do casal brasileiro que não sabe o que é concerto, esses negros parecem felizes e ajustados.
Uns, Portugal não conserta. Outros, vivem o concerto português. E este que vos escreve, com o coração apertado e uma garrafa de vinho, saboreia o bacalhau com um certo remorso, pelos jovens do concerto. Mas afinal, consolem-se: o mundo não tem conserto.

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