Vicente Golfeto
Sexta-Feira, 18 de Abril 2008 - 23h28 Sempre achei que as duas alavancas que movem o homem são o medo e o interesse. O medo freia mais do que acelera enquanto o interesse acelera muito mais do que freia.
Provérbios são a sabedoria do gênero humano. Verbalizado, enunciado pelo homem em sua saga sobre a Terra, o provérbio traduz experiência de milênios. E de povos distintos e distantes. Pode-se dizer que, pelos provérbios, temos condições de deduzir como é um povo.
O brasileiro diz que “quando a promessa é demais, o santo desconfia”, como que a insinuar que não é bom ser malicioso mas é preciso ter malícia. O puro de coração – o único que tem promessa de ver a Deus, conforme nos diz o Sermão da Montanha, a página mais bonita que eu já li em toda a minha vida – pode ter semelhança com o idiota. Pode parecer, mas não tem. O decente de conduta – que não precisa ser puro de coração – é confundido com o bobo nos tempos atuais. Por isto, é um destino muito triste ganhar campeonato de retidão em tempos de indecência generalizada.
Marcial, poeta latino que viveu pouco tempo depois de Cristo, dizia – desconfiado – que “os presentes funcionam como isca”, na mesma linha do que nos aconselha provérbio judeu, quando diz que “em todo almoço de graça existe, sempre, um preço embutido”.
Em tudo notamos o interesse. Que – se não deve nos dar medo – precisa nos colocar na defensiva, com um pé atrás. Nós podemos estar sendo usados, inclusive por amigos. Aliás, Assis Chateubriand dizia que é bom ter inimigos. Um “inimigo – dizia ele – que passa a ser amigo, deixa de ser útil”. Usar amigo, jamais. Mas os inimigos são dádivas de Deus. Eles podem ser usados como referência. Como desejava o presidente Franklin Delano Roosevelt, que queria ser julgado pelos inimigos que fazia.
Vê-se que, como a vida é um palco onde acontecem peças de teatro, segue-se que entendemos que é preciso muito ensaio para se ser espontâneo.