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Caderno C

Sabado, 19 de Abril 2008 - 19h10

Lobato para Menores

Régis Martins
F.L.PITON Lobato para Menores PESQUISADORA Áurea Laguna tem mais de 130 livros de Monteiro Lobato em seu acervo

Os fãs do escritor, editor, advogado e polemista Monteiro Lobato têm muito o que comemorar neste 2008, quando se completam os 60 anos da morte do Furacão da Botocúndia, como o próprio Lobato se referia ao Brasil. Com o fim de uma disputa judicial que durava quase uma década entre a família do escritor e a Editora Brasiliense, os livros do autor, até então relegados aos sebos, foram relançados pela Editora Globo no final do ano passado.
A grande procura pela obra do paulista nascido em Taubaté em 18 de abril de 1882 surpreendeu até os mais otimistas. O que prova que o criador de O Sítio do Picapau Amarelo ainda é um escritor relevante. Sua influência reverbera até mesmo em Ribeirão Preto, onde Áurea Laguna, uma assistente social que se tornou especialista na vida e obra do autor, pretende lançar o livro “Os Ilustradores de Lobato”.
- A minha proposta é destacar os artistas que durante décadas contaram a saga do Sítio do Picapau Amarelo, por meio de figurações, explica.

Autorização
Com especialização em literatura e crítica literária, Áurea revela que já conseguiu a autorização dos herdeiros, representados pela neta Joyce Campos Kornbluh, para o livro, e deve falar com a editora Globo para o projeto.
Áurea tentou lançar outro livro intitulado “O Mundo de Monteiro Lobato” em que traça o perfil dos personagens e conta ainda com o “Minidicionário do Visconde”, mas não obteve êxito, ainda.
A pesquisadora não se dá por vencida e demonstra um domínio absoluto do assunto. Seu acervo chega a quase 130 livros, entre biografias, revistas, jornais e toda a ficção escrita por Lobato.
- Ele foi o fundador da literatura brasileira para crianças. Misturava o maravilhoso com o real, explica.
Mas o trabalho do paulista de Taubaté ia além do Sítio do Picapau Amarelo. Como bom nacionalista, comprou várias brigas. A mais conhecida é aquela que travou com o grupo modernista quando escreveu o artigo “Paranóia e Mistificação”, a famosa crítica desfavorável à exposição da pintora Anita Malfatti, que culminaria como o estopim para a criação da Semana de Arte Moderna de 1922.
- Lobato ficou marcado como o inimigo do Modernismo brasileiro. O que não era verdade, afirma Áurea.
O Jeca
A pesquisadora cita o livro “O Jeca no Vernissage”, escrito pelo ribeirão-pretano Tadeu Chiarelli, professor da ECA-USP de São paulo, para provar que no final das contas, Lobato e os modernistas defendiam a mesma coisa: uma arte nacional, mas sob diferentes pontos de vista.
- O que ele criticava era a influência européia na pintura de Anita. Não se conformava com o futurismo e o cubismo. Dizia que qualquer um poderia desenhar aquilo. Imagine dizer isso sobre Picasso naquela época, comenta Áurea.
Muitos passaram a ver Lobato como reacionário, mas os anos provaram que sua escrita não seguia escolas e era influência assumida de gente como Oswald de Andrade.
- Lobato era tido como um pré-modernista, assim como Euclides de Cunha e Graça Aranha. Foi um dos primeiros escritores a utilizar a linguagem coloquial, garante.

Mitologia
Áurea tem essa quase obsessão pelo autor desde a mais tenra idade. Graças a “Coleção para Crianças”, organizada por Lobato pouco antes de morrer, teve contato com os personagens do Sítio do Picapau Amarelo. Revela que ela e os irmãos aprenderam muito sobre mitologia, história, geografia, matemática e gramática naqueles livros.
A pesquisadora diz que o autor inovava ao utilizar uma linguagem de fácil compreensão que mantinha distância do vocabulário parnasiano que resistia no início do século 20. Ressalta que antes dele, Olavo Bilac, Coelho Neto e outros autores escreveram livros para crianças, mas transmitiam comportamentos modelares, ao mesmo tempo em que demonstravam uma preocupação excessiva com o uso correto da língua portuguesa.
- Era um libertário. Tanto que muitos de seus livros infantis foram considerados subversivos por governos autoritários, como o de Getúlio Vargas, comenta.
Áurea diz não gostar muito das adaptações televisivas do Sítio do Picapau Amarelo, mas concorda que ajudaram a divulgar a obra de Lobato para as novas gerações. Ou nem tanto, já que nenhuma de suas duas filhas se interessaram pelos livros do escritor idolatrado pela mãe.
- Essa é uma de minhas maiores frustrações. Mas agora eu tenho uma neta e essa não me escapa, brinca.


Memórias da neta
Lobato era o vô Juca
No ano passado a neta de Monteiro Lobato, Joyce Campos Kornbluh, lançou o livro Juca e Joyce, escrito por Márcia Camargos (editora Moderna) em que fala sobre o seu relacionamento com o avô. Juca era Lobato, mas só dentro de casa.
Em entrevista ao jornal A Cidade, Joyce contou que morava perto da casa dos avós maternos, em São Paulo. A neta não inspirou nenhum personagem da obra mais famosa de Lobato, a coleção do Sítio do Picapau Amarelo, porque nasceu uma década depois da primeira publicação, mas interferia nas histórias.
- Ele lia em voz alta o que estava escrevendo e perguntava o que eu achava. Eu falava bobagens e ele ria, falando ‘boa idéia’, disse à repórter Simei Morais.
Na infância, Joyce lembra que nunca entendeu muito bem a importância do avô para a literatura brasileira e só se deu conta da fama de Juca quando viu a multidão que encheu o velório do avô.

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