Júlio Chiavenato
Sabado, 19 de Abril 2008 - 19h20 Talento e gênio não colocam ninguém acima da ética. Mas no Brasil, mesmo sem talento e longe da genialidade, a mediocridade coroada vive na glória e sobrevive mudando de lado. Cínicos escrevem autobiografias ou pagam áulicos para louvarem suas secretas virtudes e esconderem abjetas condutas.
Com um toque literário aqui, uma mentira ali, escapam da sordidez para o auto-elogio ou a consagração pelos escribas de aluguel. Quando muito, contam-se as malandragens como espertezas para através delas fazer o bem, quase sempre em favor das artes: o caso, entre outros, de Assis Chateaubriand. Aliás, “arte” e “literatura” são o que mais justificam a prática das sem-vergonhices no Brasil.
No Brasil o passado de Céline e Pound seria esquecido. Louis-Ferdinad Céline, francês, aliou-se aos nazistas quando Paris foi ocupada pelas tropas de Hitler; denunciou intelectuais e judeus. Era um gênio e deixou livros excelentes. De nada lhe valeu a literatura: foi execrado como fascista e condenado como um crápula político.
Ezra Pound talvez seja o maior poeta de língua inglesa do século passado. Norte-americano, mudou-se para a Itália e entre 1920/30 participava de programas radiofônicos transmitidos de Roma para os Estados Unidos, exaltando o fascismo. Foi julgado e de nada lhe valeu a genialidade literária. Condenado, morreu num hospício.
Pound e Céline eram gênios, mas inimigos e traidores da pátria. São reconhecidos, mas não perdoados. Os EUA, a França e a União Soviética no entanto, “assimilaram” cientistas nazistas. Porém repudiaram os traidores da pátria, os corruptos comprovados. Se estes fossem brasileiros teriam seus crimes esquecidos com um pouco de poder e uma mentirosa (auto)biografia.