Jornal A CIDADE

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Hamilton de Andrade Lemos

Sabado, 19 de Abril 2008 - 19h20

Palmeiras não votam


Vegetais seculares parecem adquirir uma capacidade extraordinária a mais, não bastasse aquela primeira, a de existir por um tempo tão longo. Talvez por presenciar ano a ano a estupidez humana, passam a demonstrar pontos de vista superiores sobre os temas da cidade.
Isso ficou bem claro na última semana, em um diálogo entre duas palmeiras da Jerônimo Gonçalves. Sim, elas conversam entre si, fato que passa despercebido por quem passa por ali, mais preocupado com o próprio umbigo. Diziam mais ou menos isso:
- Você viu, companheira? Agora essa de nos fatiar como palmitos!
- Pois é! Dizem que é necessário, para dar lugar às obras contra as enchentes!
- Que ironia! Justo nós! Não há nesta cidade um só ser vivente que tenha testemunhado tantas delas!
- E não apenas isso, se me permite a colocação! Vimos passar o ciclo do café, o início da cana e talvez ainda vejamos o fim das palmeiras. Não lhe parece injusto?
- Ah, justiça não é coisa deste mundo! Ademais, talvez por ter visto tanto é que nos julguem incômodas. Quem sabe se todo este projeto não é, na verdade, uma queima de arquivo?
- Sim, mas quem defenderá símbolos da história que somos?
- Minha cara! Para eles é mais fácil mudar a nós, as palmeiras! Pessoalmente, se pudesse, sairia correndo!
- Paciência! Estamos em ano eleitoral e enchente dá voto. Palmeiras não dão! Aliás, nem sombra damos!
- Quem sabe se fizermos uma passeata?
- Que seja rápido, então! Já estou ouvindo ligarem a motosserra!

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