Sérgio Mascarenhas
Sabado, 19 de Abril 2008 - 20h56 O grande Santos Dumont subiu aos ares, circundou a Torre Eifel, o astronauta Marcos Pontes, subiu ao espaço, circundou o Planeta Terra! Ambos elevaram a auto-estima do nosso povo e deram alento aos sonhos e ao imaginário dos nossos jovens, combustível vital para nosso desenvolvimento virtuoso nesse novo mundo globalizado e intensamente competitivo. Gosto sempre de pensar nas etapas marcantes da evolução biológica, quando penso nestes cenários. A vida, provavelmente estruturou-se na água, em meios extremos, em temperatura, salinidade, pressões hidrostáticas enormes, convulsões sísmicas dos fundos abissais dos oceanos. Bilhões de anos depois, essas moléculas replicadoras, se organizaram em células, depois tecidos, depois sistemas fisiológicos complexos, tremenda biodiversidade que ainda hoje admiramos nos seres do estranho mundo submarino. Peixes de enorme variedade, magnífica pirâmide formando o ecossistema de presas e predadores, de nutrientes e fluxos bioquímicos em continua evolução dinâmica adaptativa e ao mesmo tempo mutável e instável. Eis que as pressões evolutivas (sobre as quais nem ouso especular), mas sempre baseadas no princípio central da sobrevivência, levaram a formação de seres anfíbios, provavelmente nos ricos ecossistemas entre mar e terra. Aí deu-se o grande salto da evolução: da água para a terra! Imaginem a complexidade desta notável mudança: vida na terra firme de animais antes aquáticos, exigiu enorme evolução sistêmica fisiológica: em ambiente de escassez da água, tornou-se fundamental poupar água, reciclar água. A pele evoluiu para camada impermeável, em alguns casos em espesso couro, como nos jacarés. 0 sistema metabólico teve que se tornar extremamente econômico e eficiente no uso da água, tendo assim se desenvolvido um sistema de filtragem espetacular: os microtúbulos renais por exemplo, o sistema de transporte de íons e da própria água tornaram-se verdadeiras maravilhas até hoje não superadas na bioengenharia, apesar das modernas máquinas de diálise renal. Um homem filtra nada menos que um quilograma de sal diariamente! da água para a terra e depois, com os pássaros da terra para os ares. Com o homo-sapiens-sapiens como Santos Dumont os próprios homens voaram! E depois? Depois restou o desafio do espaço extraterrestre, a quarta transição a Astronáutica! E aí o Brasil tem Marcos Pontes, o primeiro astronauta brasileiro. Penso que o homem sairá da Terra para habitar o espaço, em grandes condomínios espaciais. A Terra será visitada para busca de materiais e até para turismo! Quem vai ficar na Terra? Novamente a grande assimetria social gerada pelo desenvolvimento tecnológico: os que não puderem pagar para habitar os condomínios espaciais, seguros, luxuosos, de grande mobilidade para escapar até de meteoritos ameaçadores de colidir com a Terra, livres de vulcões, terremotos, maremotos, com excelente proteção biológica e provavelmente com a vida mais longa na microgravidade. 0 nosso astronauta foi pois o primeiro brasileiro, a experimentar este maravilhoso passeio, ainda cheio de perigos e desafios até mortais. É a aurora da grande viagem para o espaço para a humanidade. Das estrelas viemos, para as estrelas iremos! Marcos Pontes visita São Carlos a nosso convite para uma parceria inusitada: fundaremos o primeiro Laboratório de Fisiologia Espacial Terrestre, avaliando com um método desenvolvido entre a USP de São Carlos e a USP de Ribeirão Preto os problemas de grandes acelerações da saída de astronaves como isquemia cerebral e síncopes (desmaios) usando centrífugas e instrumentação avançada. A USP-São Carlos já possui o único curso de Engenharia Aeronáutica Civil do Brasil, com estudantes e professores de alto nível. Será simbólica e altamente motivante a visita do nosso pioneiro astronauta para o futuro desse campo no Brasil. Como completo oitenta anos, esta será para mim a maior festa de aniversário com que poderia sonhar antes de me juntar às bactérias e nematóides inevitáveis na inexorável cadeia da vida e da morte. Na ilustração Janus o Deus bifronte mira o passado com Santos Dumont e o futuro espacial com o astronauta Marcos Pontes.
*Sérgio Mascarenhas é diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP-São Carlos