Jornal A CIDADE

Leia_A_cidade

Júlio Chiavenato

Segunda-Feira, 21 de Abril 2008 - 19h36

Nos conformes


De Lisboa

O Brasil devia ser a pátria dos revoltados. O pedinte às portas das igrejas de Lisboa, do Porto e Braga, veste-se melhor do que a maioria dos pobres brasileiros com emprego e celular na orelha.
Entre os países da Europa Ocidental, exceto os da velha Iugoslávia, Portugal é o mais pobre. A cidade de São Paulo é mais “rica” que Portugal. No entanto, o padrão de vida do português médio é muito superior. Manifesta-se na saúde, educação, moradia, com a “mais valia” cultural e civilizatória.
Exemplo: os ônibus urbanos. Impossível qualquer comparação com os imundos carroções que entopem as ruas de Ribeirão Preto e das capitais brasileiras. Suas portas se abrem no nível das calçadas, param em pontos protegidos, são macios (todos têm suspensão pneumática) e oferecem ampla visão. Painéis luminosos e sonoros indicam as “paragens”. Os motoristas são educados e gentis.
Falo do básico, não do “supérfluo” que faz a vida valer a pena: os bens culturais disponíveis a todos. É covardia comparar a arquitetura de Lisboa e do Porto à poluição visual das nossas ruas. O que dizer das igrejas e dos becos encantados? Observando-se esse “trivial” que alimenta a alma, percebe-se como os brasileiros são carentes e nem percebem.
Por que não nos revoltamos contra a miséria cultural em que vivemos? Por que aceitamos viver numa sociedade em que dos 180 mihões de brasileiros, 60 milhões estão abaixo da linha de pobreza? Outros 60 milhões se espremem nas “classes” C e D, com os filhos sem perspectivas econômicas e educacionais. Dos 60 milhões restantes, que se incluem na “classe” B, apenas uns 20 ou 30 milhões vivem regularmente.
Por que nos conformamos? Talvez porque fomos tratados como escravos. Pelos portugueses.

  • Imprimir
  • Enviar

É proibida a reprodução do conteúdo dessa página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso sem autorização escrita da Empresa Jornalistica Orestes Lopes de Camargo S\A
ARZ