Jornal A CIDADE

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Júlio Chiavenato

Quarta-Feira, 23 de Abril 2008 - 1h15

Cadê os miúdos?


De Lisboa - Cadê os miúdos? E os putos? Em Lisboa, Porto, Braga, Coimbra e Leiria, o máximo que se vê nas ruas são uns miudinhos com suas jovens mães. Putos, nenhuns. Todos estão nas escolas. Nenhum menino com cara de misericórdia a nos pedir, “tio, dá uma moeda”.
Mal sinto a falta dos miúdos e dos putos, esbarro a cada cem metros com santos e anjos. Santos e anjos portugueses vivem num luxo só. Recobertos de ouro, na luz peneirada dos templos seculares, espiando atônitos o bando de alemães disparar suas câmeras. Turista é um animal que devia ser proibido. Agrupam-se em torno de um guia idiota, mal entendem o que ouvem e partem para o assalto: uns posam diante dos mártires no lusco-fusco e outros, olho no visor, compõem a cena. No centro do monitor e no foco, a turista chucrute e ao fundo, fazendo figuração, a imagem secular de Santa Isabel, por acaso, rainha de Portugal antes que a Alemanha existisse.
Como todos sabem, Coimbra tem duas sés: a velha, que é de tirar o fôlego, e a nova, que é muito jovem: foi construída em 1548, alguns dizem que antes. A velha sé perdeu-se no tempo, desde que do seu pátio Afonso Henriques pôs a correr o bispo enviado pelo papa para excomungá-lo.
Essas sés, velhas e novas, ainda são “normais” na sua beleza. “Normais”, espero que me entendam: quer dizer, tonteiam, mas não nocauteiam.. Porém, a igreja de Santa Cruz, em Coimbra (ou será Braga?, tão bom é o vinho) é terrível: se eu tivesse coração cairia de joelhos, aos prantos, tal a intensidade da emoção estética, carregada de história, que ela exala. Exala, é a palavra, para o belo que vê e nos esmaga. Fico imaginando a reação de um mortal com coração e fé.
Assim é Portugal: santos, aos potes; putos, nenhuns.

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