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Caderno C

Quarta-Feira, 23 de Abril 2008 - 23h44

O Carlos Gomes renasce

Régis Martins
J.F.PITON O Carlos Gomes renasce PRESENTE PARA A CIDADE O Teatro Carlos Gomes deverá ser reinaugurado em outubro, mês do aniversário de São Simão

Até o final do século 19, São Simão era uma das cidades mais importantes do interior paulista. Com uma economia baseada no café, tinha um banco próprio, usina de eletricidade, empresa telefônica e quatro estradas de ferro. Isso numa época em que Ribeirão Preto, que foi distrito de São Simão até 1892, era um sertão bruto, como lembra o escritor e jornalista Júlio Chiavenato no livro “São Simão, A História Contada pelo Povo”.
O Teatro Carlos Gomes foi o símbolo deste período de glória. Lá se apresentaram operetas, revistas de variedades e espetáculos de todo o país. Na virada do século, veio a decadência econômica e a febre amarela que dizimou parte da população de São Simão. A cidade nunca mais foi a mesma.
Mas o Carlos Gomes sobreviveu e passou por diversas reformas e adaptações, tornou-se cine-teatro, até fechar as portas definitivamente em 1997. Onze anos depois, o teatro renasce graças a uma parceria entre iniciativa privada, prefeitura e a ONG SOS Cultura.
- A idéia da reabertura começou a surgir em 2000 com um grupo de senhoras, lembra Denise Gimenes, vice-presidente da ONG.

SOS Cultura
Denise conta que uma dessas entusiastas era dona Euclélia Fonseca, que morava em frente ao teatro e conhecia a história do Carlos Gomes como poucas. Surgia então a SOS Cultura com o objetivo de resgatar o patrimônio cultural e histórico da cidade.
O primeiro passo do grupo foi desenvolver um projeto de reforma do Carlos Gomes. Com o documento em mãos, a direção da ONG tentou encontrar patrocinadores por meio da Lei Rouanet.
- Não deu certo, mas então veio o PAC (Programa de Ação Cultural) que foi a nossa salvação, recorda Denise.
O PAC é um programa de incentivo fiscal que permite que empresas destinem até 3% do ICMS a projetos culturais aprovados pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. Em poucos meses, a SOS, em parceria com a Origem Produção Cultural, conseguiu captar 80% dos R$ 500 mil necessários para a reforma.
- Conseguimos R$ 340 mil da Usina Moreno e da Nestlé, informa Denise, que acredita que os 20% restantes devem ser captados até a reinauguração do prédio, em outubro próximo, aniversário de São Simão.

Associação de Amigos
Para a presidente da entidade, Maria Lilia de Almeida Matos, a reforma do teatro significa reabrir um espaço que oferecia cultura a todo tipo de público e contribuía para a produção local.
- Na época, tínhamos quatro grupos teatrais na cidade. Quando o teatro fechou, sobrou apenas um, explica Lilia, que lembra ainda que o Carlos Gomes era local para formaturas e, claro, cinema.
Com o início das reformas na última terça-feira, o teatro foi cedido pela Prefeitura em regime de comodato à SOS Cultura. A presidente da ONG explica ainda que foi criada uma Associação de Amigos do Teatro que vai gerenciar o local.
- O nosso objetivo é conseguir um patrocínio para a manutenção do teatro após a reinauguração, comenta Lilia.
A presidente da ONG afirma que não existem documentos ou registros sobre a planta original do teatro que, com 118 anos de história, passou por várias reformulações (ver box).
- Muitos detalhes foram lembrados por antigos moradores que vinham ao cine-teatro. Com o tempo, muita coisa foi descaracterizada, diz.


História
Um dos primeiros cine-teatros da região
Construído em 1890 pela família Reinhardt, o Teatro Carlos Gomes é uma relíquia do período em que o café reinava no interior paulista. Mesmo com a derrocada econômica de São Simão, o teatro renovou-se com a chegada do século 20. Com o aparecimento do cinematógrafo no Brasil, por exemplo, o prédio passou a abrigar também um cinema em 1908, quando seu nome foi alterado para Cine-Teatro Carlos Gomes.
A primeira reforma foi feita em 1928, quando a estrutura de zinco foi substituída por alvenaria para melhorar a acústica. Nessa época, a capacidade aumentou para 400 lugares e incluía as divisões de platéia, frisas e galerias. Poucos anos depois, em 1931, São Simão assistia à exibição do primeiro filme falado na região, “A Marselhesa”.

Arquibancadas
O cine-teatro funcionou até 1950, quando foi fechado após a inauguração de um cinema mais moderno. Só reabriu após a segunda reforma, em 1978, realizada pela prefeitura, responsável pelo prédio desde 1977.
Essa reforma alterou as características arquitetônicas originais do edifício. E como. Na área de camarotes, no segundo andar, por exemplo, chegaram a construir arquibancadas para o público.
- Isso aí nós vamos tirar, com certeza. Devemos colocar poltronas no local, garante a vice-presidente da SOS Cultura Denise Gimenes.

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