Jornal A CIDADE

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Hamilton de Andrade Lemos

Quarta-Feira, 23 de Abril 2008 - 23h53

Tremores


Eu senti o chão tremer. O último aconteceu esta semana e foi sentido nos lugares mais improváveis, inclusive em Ribeirão Preto.
Já eu, sinto o chão tremer sob os pés várias vezes por ano. Ontem mesmo, ao ler neste jornal sobre mais um assassinato, passei pela situação. Aconteceu também quando o segurança do bufê chique matou o Rodrigo e quanto o vestibulando “às no volante” ultrapassou o frentista.
Durante estes abalos, famílias inteiras desmoronaram. E talvez nunca mais possam ser erguidas novamente. Quando os sismos chegam às almas, fica difícil reconstruir.
Lamento que não exista uma escala Richter para as emoções e sentimentos. Com um instrumento destes, poderíamos evidenciar com mais precisão o quanto estes fatos mexem conosco. Parece pouco para quem não está diretamente envolvido (como se isso fosse possível). Uma manchete aqui, alguns detalhes do crime ali, e logo esquecemos. Mentira.
A cada fato criminoso que nos chega, vamos absorvendo as ondas da violência. Os impactos, sem que percebamos, fazem cair a tranqüilidade de nossas prateleiras, balançam o lustre de nossa confiança no ser humano e chegam a rachar as paredes de nossas seguranças.
Se nos terremotos geofísicos devemos nos proteger sobre os portais, nos tremores sociais não há onde se esconder. Por mais que ergamos muros e cercas elétricas, convivemos no mesmo espaço. A rua onde o casal namora é a mesma onde o bandido faz sua feira. A esquina em que se coloca um profissional despreparado coincide com os garotos que passam brincando. E deste atrito, nunca se sabe quanto a terra vai voltar a tremer.
É, este mundo está ficando um lugar perigoso.

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