Vicente Golfeto
Quinta-Feira, 24 de Abril 2008 - 22h31 O substantivo amor tem, como correspondente, o verbo amar. Da mesma maneira que o substantivo cantor tem no verbo cantar o seu correspondente. Mas o adjetivo do verbo amar não é amado. Este é o particípio passado. Dizem que amaro, amargo, é o adjetivo. Não confirmei ainda esta versão. A verdade tem inúmeras versões. Esta seria uma delas.
Clarice Lispector nos diz que “o amor que os outros têm pela gente cria mais deveres do que o amor que a gente tem pelos outros”. Ela faz um balanço cuja análise tem como insumo a gratidão, a característica fundamental das almas superiores.
Nada fere mais do que uma ingratidão, que pode ser entendida como sendo a vingança por um benefício recebido. Afirma-se que temos o ingrato que merecemos. Quando se faz o bem a quem não merece recebê-lo, o pagamento é a ingratidão. Confúcio – repito o que já citara uma vez – nos diz o seguinte: “por que me odeias se eu nunca te ajudei?”. Só se é odiado por quem se ajudou. E não merecia ajuda. É que ao auxiliamos uma pessoa – “fazer o bem sem olhar a quem” – nós trabalhamos para que ela saiba. O “não saber a mão esquerda o que fez a direita” é uma indicação no sentido de que devemos fazer o bem a todos, desde que não saibam. Caso contrário, o que recebeu o bem pode se sentir humilhado, por baixo.
De qualquer forma, amar fica mais barato do que ser amado. O adjetivo amargo – na versão acima dada – é referência direta aos que receberam ingratidão. Ela naturalmente fala da gratidão que é uma virtude mais oriental do que ocidental.
Os seres gratos ficam eternamente devedores dos favores recebidos. Principalmente quando o apoio, o bem estava impregnado de amor. Com dinheiro não se paga. O dinheiro tem preço. O amor é um valor, o mais elevado de todos. Melhor, portanto, receber ingratidão – que dói – do que ficar devendo a outros. Ou, então, mais fácil dizermos: “Deus lhe pague”.