Jornal A CIDADE

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Júlio Chiavenato

Quinta-Feira, 24 de Abril 2008 - 22h31

Idiota deslumbrado


Um dos meus problemas em Portugal é atrapalhar o trânsito. Aqui o povo é civilizado. Não estou acostumado. Você vai atraverssar a rua, os carros param, e os peões, como eles apelidam os pedestres, cruzam a rua tranqüilamente.
O caso é que na barriga da miséria nasci brasileiro. Fico na beira da calçada, os ligeiros, como eles chamam os automóveis, param, eu estupefato, não atravesso. O tráfego fica confuso, porque um portuga, ao me ver estático, não sabe se vai ou se fica. Eu, pasmo de tanta civilização, não me vou nem me fico.
Sou salvo por um conterrâneo do Camões, que atravessa sobranceiro a rua. Sigo atrás. Porém com um certo remorso. Brasileiro que sou, acho que devo ser atropelado, não posso “atrapalhar” os carros que, em Ribeirão Preto, só faltam subir nas calçadas para caçar pedestres idiotas como eu.
Porém, Portugal é estranho. Por exemplo, são 20h30 e o sol ainda ilumina o castelo de Leiria. O dia começou com 9 graus e agora, creio, está uns 15. Todo esse frio e é primavera, o país está florido. Não há casa sem flores. As janelas parecem mini-jardins.
A estrada de Leiria a Batalha é deslumbrante. Vales, montanhas, plantações do que jamais saberei o que serão, beleza a perder de vista. Não serei tonto de dizer o que é o castelo de Batalha: não saberia, e se soubesse, poucos acreditariam.
Mas uma coisa sei e podem acreditar: numa tasca, ou taverna, bebam tonéis de vinho da casa que não ficarão alterados. O queijo é cremoso, de cabra. O pão, dizem, é o melhor do mundo, e eu acredito. O vinho, com um pouco de sorte, é daqueles de aguçar o pensamento, embeleza o céu, que começa a ser pontilhado de estrelas. Às 22 horas, quando o sol se vai. *(Júlio Chiavenato escreve de Lisboa)

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