Hamilton de Andrade Lemos
Sexta-Feira, 25 de Abril 2008 - 23h10 Todo mundo já deve ter visto em algum filme de piratas, quando os vilões amarram as mãos do mocinho (ou mocinha) e o faz caminhar numa prancha de madeira, sob espetadas de espada, até cair no mar. Nestas histórias, o jogado sempre consegue se desvencilhar de alguma forma e nunca morre. Na vida real as coisas não são bem assim.
O exaustivo caso da menina Isabella não é o único caso de violência por defenestração. Antes fosse! Defenestrar é jogar algo ou alguém pela janela. A sociedade brasileira adotou a modalidade há um bom tempo e agora chegou à perfeição, colocando uma prancha na janela.
Diferente do crime sensação do momento, só abalado pelo terremoto, a defenestração com prancha é uma metáfora do que estamos fazendo com nossas crianças, geralmente sem nome e longe das estatísticas.
Ontem mesmo vimos aqui neste jornal um caso destes. O garoto Luan, com uma grave doença, teve que esperar por 10 meses pelo único medicamento que pode salvá-lo. E isso porque a justiça determinou que ele recebesse a medicação em até 5 dias. Então, sendo assim, fazer Luan esperar tanto é uma forma de fazê-lo andar pela prancha na janela.
Existem várias outras formas. Negar educação e uma vida minimamente digna às crianças, de maneira geral, também é obrigá-las à prancha. E o pior, isto é encurtar e estreitar a prancha. Mas fica uma pergunta, como a que ainda é feita no caso Isabella: quem empurrou pela janela. Em referência à menina, problema da polícia e da justiça. Nos demais casos, acuso a nós todos, responsáveis pelo mundo de hoje e construtores do legado para os que sobrarem. Como fazemos isso? Na maior parte, do jeito mais fácil: por omissão.