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Caderno C

Sabado, 26 de Abril 2008 - 14h39

O Retrato de Clarice

Régis Martins
DIVULGAÇÃO O Retrato de Clarice CLARICE LISPECTOR Livro foi lançado neste mês em São Paulo e, em maio, terá lançamento em Ribeirão Preto

Já no início da entrevista, a professora Nádia Battella Gotlib avisa: “uma fotobiografia não é um livro de fotos. É uma construção narrativa que conta a história de vida e obra a partir da reprodução visual de vários documentos”. Nádia é autora do recém-lançado “Clarice – Fotobiografia”, resultado de uma pesquisa que teve início em 1980, quando a autora teve acesso a um amplo acervo de Clarice Lispector, falecida em 1977. Na entrevista a seguir feita por e-mail, Nádia, professora aposentada da USP-SP que hoje vive em Ribeirão Preto, fala sobre seu livro e a atualidade da obra da escritora.


A Cidade – Como a senhora teve acesso ao acervo de Clarice e a todo o material apresentado no livro?
Nádia Gotlib - Tive de consultar vários acervos pessoais e institucionais, no Brasil e no exterior. Essa pesquisa começou em início dos anos 1980, logo depois da morte de Clarice, em 1977. Os documentos não estavam ainda na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Tive de esperar alguns anos até que os herdeiros depositassem o espólio na Fundação. Consultava os quase três mil documentos abrindo pastas e mais pastas e sem ter a listagem completa dessa documentação. Em 2002 obtive os direitos de reprodução das imagens de Clarice por parte dos herdeiros.

A Cidade - Quais foram os maiores desafios?
Nádia - A dificuldade foi vencer as inúmeras ‘frentes de trabalho’ que uma pesquisa como essa exige. Tive, por exemplo, de recorrer a um professor de moda para saber de que ano era um maiô que Clarice vestia numa das fotos. Tive de recorrer a colegas meus da USP, professores de ídiche, hebraico, russo, para saber o que estava escrito em alguns documentos. Outra dificuldade foi a de me deslocar para vários lugares. No caso da viagem à Ucrânia, havia a dificuldade da língua.

A Cidade – Por que este seu interesse pela obra de Clarice Lispector?
Nádia - Porque sua literatura é muito boa. É da melhor qualidade. Clarice é uma das melhores escritoras que temos. No meu entender, encontra-se no mesmo nível que um Guimarães Rosa, na prosa, ou um Drummond, na poesia.

A Cidade – Muitas vezes os leitores de Clarice são obcecados pela escritora. Também passou por isso?
Nádia - Não fiquei propriamente obcecada com Clarice, mas com a literatura dela. A literatura de Clarice é boa demais. Questiona e incomoda, e, ao mesmo tempo, encanta e instiga. Não há como ficar imune. O texto de Clarice é fatal... Fisga por dentro.

A Cidade – Se Clarice fosse uma mulher menos atraente, acha que faria a fotobiografia mesmo assim?
Nádia - Acho que sim, pois minha curiosidade em relação a Clarice surgiu a partir da sua literatura e tem tudo a ver com o que se chama de ‘figura do autor’. No caso, figura da autora. E a autoria está além de qualquer formosura física. No entanto, confesso que certos traços de beleza e de mistério existem em muitas fotos. E esse dado acaba contribuindo para a beleza gráfica do livro, é claro.

A Cidade – A beleza da escritora é perturbadora. Pode-se dizer a mesma coisa de sua literatura?
Nádia - Interessante observar que há um traço de personalidade de Clarice que existe tanto nos seus textos quanto em sua figura física: ela atrai e rejeita. Essa é a marca da sedução. Os seus textos atraem o leitor e quando ele acorda, como afirma Clarice, “o mal estava feito”.

A Cidade – Por que os jovens se interessam tanto por Clarice?
Nádia - Talvez porque estejam passando por um período de questionamento e de deslumbramento. Clarice atende a essas duas exigências de leitor bem antenado para com as coisas do mundo.

A Cidade - A senhora acredita que Clarice estava infeliz quando morreu?
Nádia - Na última fase de vida Clarice passou por fortes crises de angústia. O único registro em som e imagem que existe de Clarice é dessa fase: a entrevista da TV Cultura gravada em fevereiro de 1977. E ela faleceu em dezembro desse ano. É visível o estado de angústia de Clarice. Não sei como o Julio Lerner, o entrevistador, conseguiu levar adiante as perguntas e chegar ao fim da entrevista. Qualquer outro teria desistido no meio do caminho, diante das negações e recusas da entrevistada.

A Cidade – A professora Ely Vieitez Lisboa, disse em entrevista que se Clarice não fosse tão triste e tivesse tantos “demônios”, com certeza não escreveria daquele jeito. Concorda?
Nádia - Em parte, sim. Havia muita tristeza em Clarice. Havia muitos demônios em Clarice. Mas, no meu entender, o mais incrível é que havia também muita alegria em Clarice. E digo mais: a literatura de Clarice é contundente porque há, ao mesmo tempo, alegrias e tristezas. E não seria essa a marca da nossa condição? No conto “Amor”, publicado em Laços de Família, a personagem afirma, a certa altura, que é fácil ser santo. Difícil é ser gente. Complementaria dizendo que difícil é ser, ao mesmo tempo, anjo e demônio. E é isso que sua literatura nos traz.

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