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Sabado, 26 de Abril 2008 - 14h50

Lurdes, 88, fundou o Simioni e foi expulsa pela violência

Simei Morais
WEBER SIAN Lurdes, 88, fundou o Simioni e foi expulsa pela violência MARIA, MARIA Dona Lurdes, em sua casa na Vila Elisa: ela veio a RP para votar, limpou um terreno e fundou o maior complexo de favelas

Ela fundou o Simioni, maior complexo de favelas de Ribeirão Preto. Mas foi expulsa de lá há uma década, diz, pela violência.
Maria de Lurdes Costa Bento, 88, conta que, na época, gangues se enfrentavam no local. Perdeu neto e amigos.
“Cheguei no barraco e vi ambulância e o meu neto estirado no chão. A vizinha me puxou de lado e disse ‘subiram no teto, queriam matar era você’”, conta.
Acha que o status de fundadora a deixava em evidência. Cita nomes de pessoas que foram presas, no bairro.
“Saí, fui para São Paulo ‘andar’ e voltei para cá. Mas aquelas pessoas não estão mais lá”, diz.
Hoje, ela mora no núcleo da Vila Elisa, a chamada favela do Dito Cabrito, que tem 30 barracos.

A inauguração
Eram três horas da madrugada, e o cansaço da caminhada desde Jardinópolis não impediu a idéia. “Olhei aquele terreno, falei: ‘vou limpar esse mato para morar aqui’”, recorda.
Ali, ela fundou a primeira favela do Simioni. Hoje, há perto de seis mil moradores em barracos de tábua ou alvenaria, nos quatro núcleos da região.
Dona Lurdes não sabe especificar a data. Justifica-se dizendo que é analfabeta de escrita.
Ela conta em detalhes a viagem que deu origem à favela. Lurdes chegava à cidade a pé, para votar. Diz que dormiu na porta da escola para ser a primeira da fila, em época que o pleito se definia em cédula de papel.
“Quando acordei, tinha repórter de televisão esperando pra me filmar”, diz.
A primeira cobertura de eleição pela TV, no município, foi em 1982. “Faz mais de 30 anos que a favela nasceu”, indica Adélia, 38, sobrinha de Lurdes. Ela era pequena, quando veio de Goiás para morar no núcleo.
Depois da eleição, Lurdes e o marido, o finado Vicente dos Santos, tiraram o mato e ergueram um barrado de tábua para a família, no terreno.
“Depois, foram chegando um e outro, perguntando se podia morar ali também”, conta Lurdes.

‘Joana D’Arc, porque ela venceu a guerra’
Sem esperança, dona Lurdes diz que aguarda casa própria da Cohab. “Chamaram para um ‘predinho’ no João Rossi. Vamos ver se é mesmo”.
Faz planos de morar com os sete bisnetos de quem cuida. Eles têm de quatro a 16 anos. O pai de um está preso; a mãe de outros, sem paradeiro conhecido, conta a matriarca.
O apartamento no conjunto popular pode ser a primeira casa própria. A vontade de ter uma residência começou cedo, na infância.
“Morava na casa de família, a mulher me batia. E eu queria ter meu canto, ser livre”, conta.
Diz que, aos 13 anos, engravidou do patrão. Foi quando começou uma história de andanças. “Tive a menina na Santa Casa, mas o juiz tomou de mim, não me deixou chegar perto. Fiquei sem rumo”, relata.
Conta que a família não a quis mais. Sem casa, perambulou. Diz que não pedia comida nem dinheiro. Comia quando achava pão no pé das cruzes. “O pessoal era mais religioso e colocava comida na cruz”.
Foi levada por uma senhora para Santos, mas decidiu voltar para o interior a pé. Foi pega na serra. “Tinha uma revolta, meu coração só estava aqui, na menina. Queria que ela soubesse que ela tinha essa mãe preta”, confessa.
Mais tarde, Lurdes casou e teve outros filhos. Morava em São Paulo, já tinha mais de 30 anos, quando recebeu um telefonema, no trabalho, avisando para voltar para Ribeirão.
Pensou que o pai tinha morrido e retornou à cidade. Quando chegou na casa da irmã, teve a surpresa.
“Ela colocou três moças na minha frente e perguntou se eu conhecia alguma. Olhei bem e falei que a do meio não me era estranha. Ela disse: ‘ela é sua filha’, e nós duas começamos a chorar. Minha filha já tinha 18 anos, e achava que eu havia abandonado”.
A primogênita, que não cresceu com ela, é uma dos seis filhos que ainda estão vivos, diz dona Lurdes, depois de contar nos dedos, citando o nome de um por um. Ela teve 13 filhos.
Diz que hoje a filha sempre a convida para morar junto. “Ela diz que cuida de mim. Não vou porque tenho os meninos”, declara, se referindo aos bisnetos.
No final, Lurdes conta o nome que, ainda menina, escolheu para a filha: Joana D’Arc. “Porque ela venceu a guerra”, explica.

Sem Bolsa Família, só fubá e macarrão
Passou do meio dia quando a reportagem deixou a casa de dona Lurdes. Não tinha comida pronta.
No baú em que guarda – a cadeado – os mantimentos, só fubá e macarrão. “Fecho porque, se os meninos descobrem que tem açúcar, eles pegam tudo”, conta a bisavó.
Diz que ganha um mantimento ou outro de quem vai lá se benzer. “Eu benzo com um ramo e as palavras. É com palavra que as coisas acontecem”, indica. “Aí, eles me trazem uma roupa, um sabão, uma comida”.
Para se virar, cria porcos no quintal, para vender no final do ano. Os animais também comem do que se ganha. “É mais fácil criar porco porque a gente ganha lavagem”, explica.
No núcleo, os vizinhos se ajudam, comenta Elza Gomes, comadre de dona Lurdes, que corre para mostrar o esgoto que estourou perto. “Os porcos que beberam dessa água morreram”, diz.
Mas o que preocupava dona Lurdes é que cortaram o Bolsa Família há seis meses. Recebia R$ 112 do programa federal.
Ela não sabia, mas já estava reinserida no programa. Foi avisada pela reportagem que há dois meses voltou a ter direito ao o benefício, depois que o Ministério de Desenvolvimento Social respondeu ao jornal. O gestor municipal, a Secretaria de Assistência Municipal, também não sabia; havia informado apenas que o dinheiro foi suspenso.

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