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Sabado, 26 de Abril 2008 - 17h3

Uma ribeirão-pretana comanda programa antiviolência nos EUA

DIVULGAÇÃO Uma ribeirão-pretana comanda programa antiviolência nos EUA JÚLIA MARIA DA SILVA Psicóloga de Ribeirão Preto diz que é possível prevenir violência contra crianças

Nascida no tradicional bairro Jardim Paulista, em Ribeirão Preto, ex-estudante do Otoniel Mota, a psicóloga Júlia Maria da Silva vive desde 1993, com a família, nos Estados Unidos, depois de passar uma temporada fazendo aperfeiçoamento em Paris. O que ela faz, em Washington, é, mais do que nunca, um trabalho importante para o mundo todo. E especialmente importante para o momento nacional, pontilhado de denúncias de violência familiar contra crianças.
Depois do rumoroso caso da morte de Isabella Nardoni, de cinco anos, asfixiada e atirada do sexto andar de um prédio de classe média, em São Paulo, todos os olhares se voltam para a busca de respostas. Como prevenir casos como esses?
Júlia diz que a criança é vítima fácil da violência também nos Estados Unidos. E dá os números:
- Violência é um problema grande aqui também e afeta principalmente crianças e adolescentes. Em 2004, mais de três milhões de crianças foram registradas nas delegacias de polícia e nos serviços de proteção como vítimas de maus tratos, físicos, sexuais, emocionais e abandono. Depois das investigações feitas, 900.000 foram comprovadas como vítimas. A maioria é vítima de abandono e negligência, depois vem abuso físico, sexual e emocional. E a grande maioria- quase 80% dos agressores- são os próprios pais.
E que motivos têm os pais para maltratar os filhos dessa maneira? Júlia elenca uma série de motivos.
- Pobreza, uso de drogas e alcoolismo, doença mental não tratada como depressão, esquizofrenia, crise conjugal, falta de conhecimento de como controlar a raiva e como resolver os conflitos sem usar violência. Outro fator é que muitos pais ainda acreditam que bater e espancar os filhos os ensina a se comportar.
É justamente nessa área que a Associação Americana de Psicologia atua, tentando treinar pais e responsáveis para aprender a lidar com a raiva e os conflitos. Outra linha de trabalho é a conscientização de que não é batendo que se consegue bons resultados.
- A maioria dos pais não sabe que o comportamento deles em relação aos filhos tem conseqüências sérias no desenvolvimento e no futuro dos filhos. Os estudos mostram que durante a infância os pais (ou quem cria as crianças) são as pessoas com maior influência sobre o que as crianças aprendem. Os adultos são o modelo mais importante, já que crianças aprendem por imitação e observação. Começamos em 2000 o programa que enfoca a infância. O objetivo é educar os pais ou quem quer que crie as crianças, para entenderem que o que eles fazem e dizem para os filhos e na frente dos filhos tem um impacto muito sério.

Conseqüências
Júlia afirma que crianças expostas à violência em casa, seja diretamente como vítimas, ou como testemunhas, têm muito mais chance de serem violentas no futuro. Além disso, aumentam as chances de mau desenvolvimento escolar, terem depressão, problemas para dormir, ficarem ansiosas e inseguras.
- Elas perdem a confiança naqueles que deveriam cuidar delas e protegê-las ( adultos ou pais vioelntos) e isso é uma conseqüência terrível, que deixa as criancas marcadas para o resto da vida. Às vezes se tornam apáticos emocionalmente, sem medo e sem remorso, o que se pode chamar de “sangue frio”.
É aí que entra o trabalho de prevenção desenvolvido por Júlia, na Associação:
- Queremos ensinar as famílias a aprender do que as crianças são capazes de entender e fazer nas diferentes idades. Nossa missão é ajudar os pais a ser realistas e saber o que esperar dos filhos, para que não se frustrem. Muita violência ocorre porque os pais esperam mais do que as criancas podem fazer ou entender. Como elas não correspondem, eles acabam usando violência. Também queremos ensinar os adultos a entender que raiva é uma emoção normal advinda de conflitos que também são normais porque somos todos diferentes. Precisamos aprender a usar palavras e não violência para resolver conflitos.
Selecionar o que os filhos vêem também faz parte do programa:
- Violência na mídia leva as criancas a serem mais agressivas e os pais precisam monitorar e controlar os que as crianças assistem e os videogames e jogos de computador que jogam. Outra mensagem que passamos é que as familias precisam dedicar tempo aos filhos. Estudos mostram que em famílias que jantam juntas cinco vezes na semana diminui consideravelmente a possibilidade dos filhos usarem drogas e se envolverem com gangues.

Violência americana
Júlia Silva diz que Washington é uma cidade violenta porque tem uma grande camada de pobres, negros e latinos que vivem numa determinada área da cidade, isolados socialmente do resto e que se sentem excluídos.
Além disso, eles têm acesso fácil a armas, que são bem aceitas na sociedade americana.
Tambem há muito tráfico de drogas e gangues envolvendo as minorias, que vêem no tráfico e nas gangues uma maneira de serem valorizados e respeitados na comunidade. É assim que eles pensam que obtêm poder, que, de outra forma, na visão deles, jamais conseguiriam. Qualquer semelhança com o Brasil não será mera coincidência. Por isso mesmo o confronto de realidades e exemplos é importante.

De Ribeirão Preto para o mundo
Júlia Maria da Silva nasceu em Ribeirão Preto, em janeiro de 1953, filha do advogado Edgard Silva e da dona-de-casa (já falecida) Olga.
É casada com o economista Elcior Santana Filho, 57 anos, funcionário de carreira do Banco Central e hoje chefe de gabinete do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), além de professor universitário em Washington. Mãe de dois filhos, Murilo (25 anos) e Gregório (21), Júlia é graduada em psicologia pela PUC -SP, com pós- graduação em sociologia e estudos latinoamericanos pela Universidade de Paris, onde viveu de 1980 a 1984.
Fez estágio na UNESCO e em escolas públicas. Como membro de um grupo de direitos humano, fez programas de rádio e deu palestras na França.

No Brasil
Trabalhou vários anos com ONGs em São Paulo na área de educação popular, alfabetização de adultos, projetos comunitários em favelas e assessoria a movimentos populares. Trabalhou no governo federal em Brasília entre 1986 e 1992, no Ministério do Trabalho como subsecretária de estudos em formação profissional; no CNPq na área de edução e technologia; e como diretora de estudos e comunicações na ENAP-Escola Nacional de Administracao-Pública.

Em Washington,
Trabalhou como consultora na área de projetos internacionais de educação e desde 1997 trabalha na Associação Americana de Psicologia, a organização profissional e científica dos psicólogos americanos.

DA REPORTAGEM

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