Especial
Sabado, 26 de Abril 2008 - 18h30
CENA COMUM NO TRÂNSITO DE Ribeirão preto Acidente com moto mobiliza homens do resgate
Os números impressionam. No ano passado, em Ribeirão Preto, a cada três horas e sete minutos, foi registrado um acidente de moto. No total, os 2.544 acidentes envolveram 4.073 pessoas, que os técnicos chamam de acidentados. São pessoas que viajam na garupa ou são atropeladas.
Como 2007 teve cerca de de 9 mil horas, Ribeirão contabilizou um acidentado a cada pouco mais de duas horas.
Do total de 4.073 envolvidos em acidentes, morreram 42. Não há informação oficial sobre feridos graves ou mutilados.
Só na Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas, na rua Bernardino de Campos com a 7 de Setembro, foram atendidos mais de 600 lesionados - geralmente os casos mais graves. Nestes números da UE incluem-se também acidentados de algumas cidades da região.
Comparativo
Em 2007, o trânsito em Ribeirão registrou 326 acidentes a mais que em 2006. Na soma, foram 2.544 contra 2.218, um aumento correspondente a 14,69%. O número de acidentados em 2007 somou 587 a mais que em 2006, que teve 3.291.
O ano de 2005 também foi difícil para os motoqueiros. Mesmo com uma frota menor - 64.547 veículos - foram registrados 2.251 acidentes, com 38 mortos e 3.291 acidentados.
Os dados são da Transerp (Empresa de Transporte Urbano de Ribeirão Preto), que ainda não liberou informações sobre o número de acidentes, mortos e feridos em 2008.
As duras estatísticas
2005
Acidentes 2.251
Mortes 38
Acidentados 3.291
Frota (motos) 64.547
2006
Acidentes 2.218
Mortes 30
Acidentados 3.186
Frota 72.907
2007
Acidentes 2.544
Mortes 42
Acidentados 4.073
Frota 82.656
Traumas registrados somente na Unidade de Emergência do HC de abril de 2004 a dezembro de 2007
Quedas 2.427
Ciclistas 780
Agressão 734
Atropelamentos 621
Queimadura 464
Arma branca 254
Arma de fogo 248
Gasto da UE chega a R$ 30 mi/ano
SIDNEI QUARTIER
O cirurgião geral Sandro Scarpelini, 45 anos, docente da cirurgia de urgência da Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas, avalia que cerca de 600 vítimas de acidentes de motos, geralmente os casos mais graves, são atendidos anualmente na UE. Como a média de gastos no tratamento dos pacientes gira em torno de R$ 50 mil, as despesas da Secretaria Estadual de Saúde, só com vítimas de motocicletas, podem chegar a R$ 30 milhões/ano.
Scarpelini lembra que no Brasil não existem números oficiais sobre custos com acidentes de trânsito ou, mais especificamente com traumas sofridos por motoqueiros.
“Mas, em Ribeirão Preto, é por aí, um gasto muito caro para a sociedade”, diz.
Para se ter uma idéia, só nos quatro primeiros meses deste ano, foram feitas cinco amputações na UE - paciente de Ribeirão e da região - o correspondente a mais da metade das amputações realizadas no ano passado.
Outros custos
O cirurgião geral deixa claro que não estão incluídas nesta conta, a ausência prolongada no trabalho, as fisioterapias também demoradas e, muitas vezes, a falta de reinserção da vítima na sociedade ou pelo menos no mesmo emprego dela. Nem mesmo estão incluídos os gastos como auxílio-doença ou aposentadoria precoce.
“Quando o acidentado perde uma perna ou um braço, dependendo do emprego, não poderá mais exercer aquela profissão. Ou mesmo um trauma de crânio pode afastar a pessoa de seu emprego”, diz Sandro Scarpelini.
A Unidade de emergência do HC atende perto de 1.200 vítimas de trânsito por ano. Destes acidentes, 50% envolvem motociclistas.
Cirurgias
Scarpelini diz que há, basicamente, três tipos de atendimentos ao acidentado de moto. O mais comum é quando a vítima sofre fratura exposta (o osso rompe a pele). Nesse caso, a cirurgia deve ser feita em, no máximo, seis horas, para se evitar complicações de infecções na lesão.
O outro tipo de atendimento é quando a cirurgia pode ser feita em dez dias ou mais dias. É aplicado no paciente com fratura fechada e que necessita de tratamento definitivo, como a colocação de placas e pinos.
Isso - lembrou o médico - ocorre quando a lesão requer apenas o trabalho de ortopedia.
“Há casos em que é preciso operar em quinze minutos, para evitar que o acidentado morra sangrando, quando há perfuração de baço, fígado ou mesmo pulmão”.
Outro tratamento que ocorre com freqüência é quando a vítima precisa de se submeter a dez, quinze cirurgias durante a mesma internação.
“Quando se perde grande quantidade de pele, vai um longo período de intervenções até entregar o paciente pronto para a cirurgia plástica definitiva”.
Ocupação de leitos
A ocupação de leitos por jovens acidentados, que poderiam servir a idosos ou pessoas com maior necessidade de tratamento, também é levado em consideração por Scarpelini, para quem a prevenção ainda é o melhor caminho.
“A prevenção é fundamental no trauma. É mais fácil evitar um acidente que prevenir contra alguns tipos de doença como o câncer e o infarto”, avalia o cirurgião geral.
Da Grande São Paulo
O cirurgião geral Sandro Scarpelini, docente da cirurgia de urgência da UE do Hospital das Clínicas nasceu em Santo André, na Grande São Paulo.
Entrou na medicina da USP-RP em 1983 e formou-se em 89. Em 94, aprovado em concurso, passou a integrar o corpo de cirurgia geral do Hospital das Clínicas. Daqui não saiu mais. Pelo jeito, adotou Ribeirão.
Regiane, 24 anos, não sabe se voltará a ter vida normal
Regiane Aparecida de Lima, 24 anos, tinha uma vida rigorosamente normal até a fatídica noite de 18 de março. Era recepcionista de emergência no Hospital São Francisco, almoçava com as colegas, curtia boas horas de lazer e, à noite, concluía o curso de técnica em enfermagem, no Hospital Santa Tereza. Às 21h do dia 18, depois da aula de enfermagem, foi atropelada em um acesso à Anhangüera, no Novo Shopping.
Ia para casa, no Quintino II. O motorista do carro não obedeceu a sinalização de pare e atropelou a moto de Regiane. Ela acordou duas horas depois num leito hospitalar. Desde então, não saiu da cama. E o que e pior: teve a medula comprometida e não sabe se voltará a andar.
Mas Regiane, felizmente, é uma moça de brio. Se diz preparada para tudo. Se voltar a andar, tudo bem. Se tiver que viver numa cadeira de rodas, pretende retomar o trabalho. Tem planos, inclusive: quer ser enfermeira e promete lutar pelo objetivo.
“Não adianta ficar lamentando. Aconteceu, agora é tocar a vida, da melhor maneira”, disse.
A moto e o avião
Pouco depois das 21h da chuvosa noite de sábado passado (19) a equipe de resgate se dividiu em duas. Uma saiu para atender a queda de um bimotor num canavial em Batatais.
A outra correu para socorrer o estudante Diogo Barbosa Cavaleiro, 21 anos, que tinha caído da moto em frente ao CDP (Centro de Detenção Provisória), em Serrana.
Os quatro passageiros do avião, que varou 600 metros de cana-de-açúcar antes de parar, nada sofreram. Três foram liberados imediatamente. O outro ficou um dia no hospital para observação.
Já Diogo, que ia para Batatais, onde faz Biologia, ao perder o controle da condução, uma Honda 250, estatelou-se no acostamento, sofrendo fraturas na tíbia e no fêmur.
Diogo continua internado na Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas.
Santa Rosa, em 7 anos, não se acidentou
Ele é um legítimo campeão na correria do trânsito em Ribeirão Preto. Mototaxista há sete anos, ainda não sofreu acidente.
Baiano de Ipirá, 40 de idade, se viu obrigado a trocar a metalurgia por uma motocicleta. Foi gostando e está na profissão até hoje. Diz que é “juntado” com uma moça e tem um filho.
Para andar em Ribeirão, ensina que é preciso muita atenção e não confiar nos motoristas.
“Não pode ter olho pesado”, diz. Olho pesado é como é chamado o motoqueiro que tem dificuldade para olhar rapidamente para os lados.
“É preciso dirigir muito mais para os outros, enxergar longe e, principalmente, ser cuidadoso”.
Eliseu: 10 anos
Ex-barman da Recreativa, Eliseu Silva, 49 anos, é mototaxista há dez. Mas já sofreu um acidente. Carrega na mão direita as marcas de uma “pegada” de automóvel que o lançou ao chão numa esquina na rua Itacolomi, zona Sul.
“Mas foi só. E voltei a trabalhar no dia seguinte”, lembra.
Para Eliseu, as maiores vítimas do trânsito são jovens motoqueiros (inclusive moças) que pilotam pouco, apenas para ir ao trabalho e voltar para casa.
“São meninos sem muita experiência, que pegam o trânsito na pior hora, no amanhecer e nos finais de tarde”.
No ponto onde Eliseu trabalha, todos são “velhos” de casa (de cinco a dez anos de atividade) e jamais alguém sofreu um acidente grave.